A resposta curta
Em Mateus, Marcos e Lucas, sim: os discípulos preparam a Páscoa, e Jesus diz “desejei ardentemente comer esta Páscoa com vocês”. Em João, não: a ceia acontece “antes da festa da Páscoa”, e Jesus morre na hora em que os cordeiros são sacrificados. Os estudiosos ainda discutem qual data é a histórica; muitos falam numa refeição cheia de sentido pascal.
Revisado em
Marcos, Mateus e Lucas: sim
Os três primeiros Evangelhos são claros. Datam os preparativos pelo próprio sacrifício.
No primeiro dia dos pães asmos, quando sacrificavam o cordeiro da Páscoa, seus discípulos lhe perguntaram: “Onde o senhor quer que vamos preparar a Páscoa para que possa comê-la?”
Dois discípulos encontram a sala no andar de cima, “e prepararam a Páscoa” (Marcos 14:16). À mesa, em Lucas, o próprio Jesus dá nome à refeição:
Desejei ardentemente comer esta Páscoa com vocês antes de sofrer,
João: na véspera
João conta a mesma noite e nunca a chama de ceia pascal. O relato dele abre com uma data.
Ora, antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que havia chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai.
Quando Judas sai da mesa, alguns discípulos acham que Jesus o mandou comprar “o que precisamos para a festa” (João 13:29): a festa ainda estava por vir. Na manhã seguinte, os sacerdotes não entram no pretório de Pilatos, para continuarem aptos a “comer a Páscoa” (João 18:28). Em João, Jesus morre na tarde em que os cordeiros eram mortos no Templo, como explica a página sobre o dia da morte de Jesus.
Pistas na refeição
O estudioso alemão Joachim Jeremias, num livro de 1935 sobre as palavras de Jesus na ceia, reuniu os sinais de Páscoa no relato dos três primeiros Evangelhos:
- À noite, dentro da cidade. A semana toda Jesus passou as noites fora da cidade, em Betânia. Esta ceia é comida depois de escurecer, dentro de Jerusalém (Marcos 14:17), como o cordeiro pascal tinha de ser (Êxodo 12:8).
- A comida explicada. Jesus interpreta o pão e o cálice. Na Páscoa, quem presidia a mesa explicava o cordeiro, o pão sem fermento e as ervas amargas; a Mixná diz que quem não falou dessas três coisas não cumpriu a festa (Pesachim 10:5).
- Um hino no fim. “Depois de cantarem um hino, saíram” (Marcos 14:26), provavelmente o Halel, os Salmos 113 a 118, que encerravam a ceia pascal (Pesachim 10:7).
E contra: nenhum Evangelho fala de cordeiro ou de ervas amargas na mesa. O pão é chamado artos, a palavra comum, e não azyma, sem fermento. No que seria o próprio dia da festa, há um julgamento de madrugada, Simão de Cirene chega “do campo” (Marcos 15:21) e José de Arimateia compra um lençol de linho (Marcos 15:46). Os principais sacerdotes até tinham planejado agir “não durante a festa” (Marcos 14:2). E o sêder como os judeus o celebram hoje tomou forma depois de 70 d.C.: veja o que a Páscoa judaica celebra.
Como encaixar os relatos
- João mudou a data. Queria que Jesus, “o Cordeiro de Deus” (João 1:29), morresse na hora dos cordeiros. Ou o contrário: os primeiros Evangelhos fizeram de uma ceia de despedida uma Páscoa. Paulo, que escreve antes de todos os Evangelhos, chama Cristo de “nossa Páscoa” (1 Coríntios 5:7), mas data a ceia apenas “na noite em que foi traído” (1 Coríntios 11:23).
- Dois calendários. Em 1957, a estudiosa francesa Annie Jaubert propôs que Jesus seguia o calendário solar do livro dos Jubileus e da comunidade de Qumran, e comeu a Páscoa na terça à noite. O papa Bento XVI, em Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a ressurreição (2011), achou a hipótese improvável e considerou mais provável a data de João.
- Uma Páscoa antecipada. Sabendo que estaria morto antes da festa, Jesus deu à última ceia um sentido pascal um dia antes: “de modo algum comerei dela novamente” (Lucas 22:16).
A pergunta chegou a dividir o pão das igrejas. Os cristãos do Ocidente, seguindo a Páscoa dos três primeiros Evangelhos, passaram a usar hóstias sem fermento. Os do Oriente mantiveram o pão fermentado, e a briga por causa disso esteve entre as queixas do cisma de 1054. Até hoje a hóstia da missa católica é feita sem fermento.
Fontes
- Marcos 14:1–26; 15:21, 46; Mateus 26:17–30; Lucas 22:7–20
- João 1:29; 13:1–30; 18:28; 19:14–36; 1 Coríntios 5:7; 11:23–25; Êxodo 12:1–14
- Mixná, Pesachim 10:5–7
- Joachim Jeremias, Die Abendmahlsworte Jesu (1935); Annie Jaubert, La date de la Cène (1957)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.