A resposta curta
A Páscoa judaica, Pessach em hebraico, comemora a libertação de Israel da escravidão no Egito, contada em Êxodo 12. O nome lembra a noite em que Deus “passou por cima” das casas marcadas com sangue de cordeiro. Dura sete ou oito dias, em março ou abril, e começa com o Sêder: matsá, ervas amargas, vinho e a história recontada.
Revisado em
Por que se chama Páscoa
O nome vem da última praga. O verbo hebraico pasach quer dizer passar por cima, poupar, e o Êxodo coloca a explicação numa conversa de família:
E acontecerá que, quando os seus filhos lhes perguntarem: ‘O que significa este culto para vocês?’ vocês dirão: ‘É o sacrifício da Páscoa do SENHOR, que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e poupou as nossas casas.’
Desde o começo, então, é uma festa feita para provocar perguntas, e continua assim. A noite em si, com as pragas antes dela, está em as dez pragas do Egito. Em português, a palavra ficou para as duas festas: Pessach virou pascha em grego e latim, e daí Páscoa, tanto a judaica quanto a cristã. Por isso no Brasil se diz “Páscoa judaica”, para não confundir. O inglês e o alemão são exceções: dizem Easter e Ostern.
Um memorial por ordem
O Êxodo torna o dia permanente: “Este dia será um memorial para vocês” (Êxodo 12:14). Dois alimentos guardam a memória. O cordeiro, assado e comido com ervas amargas (Êxodo 12:8). E o pão sem fermento, porque o povo saiu com tanta pressa que a massa não teve tempo de crescer (Êxodo 12:39). O Deuteronômio o chama de “o pão da aflição”, comido por sete dias “para que você se lembre do dia em que saiu da terra do Egito todos os dias da sua vida” (Deuteronômio 16:3).
A festa começa no décimo quarto dia do primeiro mês, ao entardecer (Levítico 23:5), o mês da primavera que depois se chamou nisã, e a Festa dos Pães Asmos segue por sete dias. Em Israel se guardam sete dias; muitas comunidades fora de lá guardam oito. Antes de começar, a casa é limpa de todo chametz, qualquer coisa fermentada.
A mesa do Sêder
No tempo do Templo, as famílias levavam os cordeiros para serem sacrificados em Jerusalém e os comiam na cidade; por isso a família de Jesus subia todo ano (Lucas 2:41). Depois que os romanos destruíram o Templo, em 70 d.C., o sacrifício acabou, e a ceia em família passou a ser o centro da festa. A Mishná, escrita por volta de 200 d.C., já descreve a sua ordem, sêder em hebraico. Na mesa de hoje:
- Matsá, o pão sem fermento, achatado. Um pedaço partido, o afikoman, é escondido, e as crianças saem à procura.
- Maror, ervas amargas, como a raiz-forte, pela amargura da escravidão.
- Charosset, uma pasta de maçã, nozes e vinho, pela argamassa dos tijolos.
- Karpas, uma verdura molhada em água salgada, pelas lágrimas.
- Um osso assado e um ovo, lembranças do cordeiro pascal e da oferta da festa.
- Quatro taças de vinho, e uma taça servida ao profeta Elias, cuja volta é esperada.
A Hagadá, o relato
O livro lido à mesa é a Hagadá, “o relato”, nome que vem de uma ordem do Êxodo:
Naquele dia você dirá ao seu filho: ‘Isto é por causa do que o SENHOR fez por mim quando eu saí do Egito.’
Por isso a criança mais nova faz as Quatro Perguntas, que começam com “Por que esta noite é diferente de todas as outras noites?”. Os adultos respondem com a história: a escravidão, as pragas, recitadas com uma gota de vinho derramada para cada uma, e a saída. Cantam Dayenu, “já nos bastaria”, e terminam com “No ano que vem, em Jerusalém”. Em cada geração, diz a Mishná, cada um deve se ver como se ele mesmo tivesse saído do Egito (Pesachim 10:5).
A Páscoa e os primeiros cristãos
Marcos, Mateus e Lucas fazem da Última Ceia uma refeição de Páscoa, e Paulo escreve: “Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado em nosso lugar” (1 Coríntios 5:7). Mas o Sêder como se celebra hoje tomou forma depois de 70 d.C., então a ceia de Jesus não era um Sêder moderno. A forma mais antiga da festa sobrevive em outro lugar: os samaritanos ainda sacrificam cordeiros no monte Gerizim todo ano.
Fontes
- Êxodo 12:1–51; 13:3–10
- Levítico 23:4–8; Deuteronômio 16:1–8
- Lucas 2:41; 1 Coríntios 5:7
- Mishná, Pesachim 10
- A Hagadá de Pessach
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.