A resposta curta
Sim, de passagem. João 10:22 coloca Jesus no Templo durante a “Festa da Dedicação”, que é o Hanukkah: a única menção no Novo Testamento. A história da festa, o Templo reconsagrado em 164 a.C., está em 1 Macabeus, que faz parte das Bíblias católicas e ortodoxas. O azeite que durou oito dias vem depois, do Talmude.
Revisado em
Uma frase em João
O Hanukkah, ou Chanucá, ganha uma frase só no Novo Testamento, e metade dela fala do clima.
Celebrava-se a Festa da Dedicação em Jerusalém. Era inverno, e Jesus estava caminhando no templo, no pórtico de Salomão.
Hanukkah quer dizer “dedicação” em hebraico, e a palavra grega de João, enkainia, quer dizer o mesmo. O pórtico de Salomão era uma colunata coberta no lado leste do Templo, um lugar abrigado para andar no frio. Jesus celebrava o Hanukkah? João só diz que ele estava lá, andando e ensinando no Templo enquanto a cidade guardava a festa. É uma das festas judaicas que João usa para marcar o relógio da sua história, ao lado da Páscoa e da Festa dos Tabernáculos.
O que aconteceu em 164 a.C.
Em 167 a.C., o rei selêucida Antíoco IV, herdeiro de um dos generais de Alexandre, proibiu a prática judaica e construiu um altar pagão em cima do altar do Templo: “uma abominação da desolação” (1 Macabeus 1:54). Uma família de sacerdotes da aldeia de Modim se revoltou. O líder, Judas, ganhou o apelido de Macabeu, provavelmente “o martelo”. Em 164 a.C., ele retomou Jerusalém, construiu um altar novo e voltou a acender o candelabro.
Judas, seus irmãos e toda a assembleia de Israel determinaram que os dias da dedicação do altar fossem celebrados todos os anos, por oito dias, a partir do vigésimo quinto dia do mês de Quisleu, com alegria e júbilo.
O dia 25 de Kislev, o Quisleu da tradução, cai entre o fim de novembro e dezembro. Por isso o Hanukkah vem no inverno do hemisfério norte, e por isso João fala do frio. No Brasil, cai entre o fim da primavera e o começo do verão.
Por que oito dias?
1 Macabeus dá os oito dias, mas não o motivo. 2 Macabeus dá: os rebeldes tinham passado a Festa dos Tabernáculos, no outono, escondidos nas montanhas, e quiseram compensar.
Celebraram oito dias com alegria, à maneira da Festa dos Tabernáculos, lembrando-se de como pouco antes, durante a Festa dos Tabernáculos, haviam vagado pelas montanhas e cavernas como animais selvagens.
A Festa dos Tabernáculos dura sete dias e tem um oitavo dia solene (Levítico 23:36). O primeiro Hanukkah foi, de certo modo, uma festa dos Tabernáculos atrasada, com ramos de palmeira e hinos (2 Macabeus 10:7).
O azeite veio depois
A história que todo mundo conhece não está em nenhum dos dois livros. No Talmude Babilônico (Shabat 21b), compilado séculos depois, os rabinos contam de uma pequena jarra de azeite puro, ainda lacrada pelo sumo sacerdote, que dava para um dia e durou oito. Flávio Josefo, por volta de 93 d.C., já chama a festa de “Luzes”, mas não conta nada sobre azeite (Antiguidades Judaicas 12.325).
O candelabro também mudou. O do Templo tinha sete lâmpadas (Êxodo 25:37), e o Arco de Tito, em Roma, o mostra levado no triunfo romano depois de 70 d.C. A chanukiá, a menorá de nove braços, com oito luzes e uma vela auxiliar chamada shamash, veio muito depois. No tempo de Jesus a festa tinha as suas lâmpadas, mas não essa.
Que Bíblias trazem a história
- As Bíblias católicas e ortodoxas incluem 1 e 2 Macabeus, herdados da Septuaginta, a Bíblia grega da igreja antiga.
- A maioria das Bíblias protestantes os deixa de fora ou os imprime entre os apócrifos, como fazia a King James de 1611.
- A Bíblia hebraica não os inclui. Os costumes do Hanukkah vêm dos rabinos, não da Torá.
Então, dizer que o Hanukkah “está na Bíblia” depende em parte de qual Bíblia. O Purim, a outra festa alegre nascida depois de Moisés, tem um livro inteiro da Bíblia hebraica só para ele: Ester.
Fontes
- João 10:22–39
- 1 Macabeus 1:54–64; 4:36–59
- 2 Macabeus 10:1–8; Levítico 23:33–36
- Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 12.316–325
- Talmude Babilônico, Shabat 21b
- Êxodo 25:31–40; Arco de Tito, Roma (c. 81 d.C.)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.