História do Brasil · Fatos

O que foi o Dia do Fico?

A resposta curta

Foi 9 de janeiro de 1822, o dia em que Dom Pedro, príncipe regente, recebeu um pedido com mais de 8 mil assinaturas e decidiu ficar no Brasil, desobedecendo à ordem das Cortes de Lisboa para voltar a Portugal. A frase famosa, “diga ao povo que fico”, só saiu impressa no dia seguinte, num segundo edital.

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Uma ordem que soou como afronta

Em dezembro de 1821, chega ao Rio uma ordem das Cortes de Lisboa: o príncipe regente deve voltar a Portugal quanto antes e, de lá, viajar incógnito pelas cortes da Espanha, da França e da Inglaterra. As mesmas Cortes já tinham decidido que as províncias brasileiras obedeceriam direto a Lisboa, e não mais ao Rio. A lei dizia até quem iria junto na viagem: pessoas “dotadas de luzes, virtudes e adesão ao sistema constitucional”. Para quem governava um reino, era uma volta sob tutela.

No Centro-Sul, muitos comerciantes e fazendeiros veem na ordem uma tentativa de fazer o Brasil voltar a ser colônia. De São Paulo, José Bonifácio escreve a Pedro uma carta dura. No Rio, começam a colher assinaturas. Pedro, de 23 anos, tem motivos de sobra para ficar: o apoio do Rio, a pressão de Bonifácio e um conselho do pai. Segundo uma carta do próprio Pedro, dom João lhe tinha dito, antes de partir, que, se o Brasil tivesse de se separar, era melhor que fosse com o filho.

Meio-dia no Paço

9 de janeiro de 1822, meio-dia. José Clemente Pereira, presidente do Senado da Câmara, a câmara municipal do Rio, entra no Paço com o pedido para o príncipe ficar. São mais de 8 mil assinaturas. Lá fora, no largo diante do palácio, a atual Praça XV, uma multidão espera a resposta.

Um detalhe que pouca gente lembra: José Clemente Pereira nasceu em Portugal. No Rio de 1822, ser brasileiro ainda era uma escolha política, não uma certidão de nascimento.

Duas versões da mesma resposta

Pedro aceita ficar, e a ata da sessão registra a frase que todo mundo aprendeu na escola. Mas o edital que o Senado da Câmara imprimiu naquele mesmo dia, para anunciar a decisão à cidade, trazia outro texto, bem mais cauteloso:

Convencido de que a presença de minha pessoa no Brasil interessa ao bem de toda a nação portuguesa e conhecendo que a vontade de algumas províncias o requer, demorarei minha saída até que as Cortes e meu augusto pai e senhor deliberem a este respeito com perfeito conhecimento das circunstâncias que têm ocorrido.

D. Pedro, segundo o edital do Senado da Câmara do Rio de Janeiro de 9 de janeiro de 1822

Nada de fico. O príncipe promete adiar a partida até que Lisboa e o pai decidam. No dia seguinte, um segundo edital disse que o primeiro tinha saído com “notável alteração de palavras”, culpou o “transporte de alegria” na sala e publicou a versão que ficou:

Como é para bem de todos, e felicidade geral da nação, estou pronto: diga ao povo que fico.

D. Pedro, segundo o edital do Senado da Câmara do Rio de Janeiro de 10 de janeiro de 1822

Qual das duas ele disse? A favor da frase famosa, há a ata e uma carta de Pedro ao pai, datada do dia 9, que usa a mesma forma. Contra, há o primeiro texto impresso, no próprio dia. Vários historiadores acham que a frase nunca foi dita em voz alta daquele jeito, e a imprensa da época quase não noticiou o episódio.

O dia seguinte

“Fico” é só o verbo ficar na primeira pessoa: eu fico. Mas ficar, naquele momento, era desobedecer, e a reação veio rápido. Em 11 de janeiro, as tropas portuguesas do general Avilez pegaram em armas e subiram o morro do Castelo. Milícias e voluntários se juntaram no campo de Santana. Pedro não recuou e mandou os soldados portugueses embora. Em fevereiro, eles embarcaram para Lisboa.

Em 16 de janeiro, José Bonifácio assumiu o Ministério do Reino e dos Estrangeiros. Dali até o rompimento foram oito meses de passos cada vez mais largos, contados em Como foi a Independência do Brasil?. O fim dessa estrada, perto do riacho Ipiranga, está em Quem disse ‘Independência ou morte’?. O 9 de janeiro não é feriado, mas foi ali que o príncipe disse não a Lisboa na frente de todo mundo. Quem era esse príncipe está em Quem foi Dom Pedro I?.

Fontes

  • Editais do Senado da Câmara do Rio de Janeiro, 9 e 10 de janeiro de 1822
  • D. Pedro a D. João VI, carta de 9 de janeiro de 1822
  • Cortes de Lisboa, lei de 1º de outubro de 1821, Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada
  • Isabel Lustosa, D. Pedro I (2006)
  • Poder360, reportagem sobre os 200 anos do Dia do Fico (2022)