A resposta curta
Na ordem direta: as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico. Quem ouve são as margens calmas do riacho Ipiranga, em São Paulo, perto de onde Dom Pedro proclamou a separação de Portugal, em 7 de setembro de 1822. O verso está invertido e só termina na linha seguinte.
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Uma frase de trás para frente
O Hino Nacional começa com um verso que todo brasileiro sabe de cor e muita gente entende torto: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas”. A frase está invertida e só termina no verso seguinte. O nome desse recurso é hipérbato, e o hino está cheio dele:
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heroico o brado retumbante, / E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos, / Brilhou no céu da Pátria nesse instante.
Na ordem direta: as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico. Quem ouve são as margens. Quem grita é o povo. Plácidas quer dizer calmas, tranquilas. Brado é grito, e retumbante é o que ecoa forte. Fúlgidos são os raios que brilham.
O Ipiranga existe
O Ipiranga é um riacho de São Paulo. O nome vem do tupi e costuma ser traduzido como “rio vermelho”. Em 7 de setembro de 1822, Pedro voltava de Santos para a cidade de São Paulo quando os mensageiros do Rio o alcançaram numa colina perto do riacho. Ali, o príncipe proclamou o Brasil separado de Portugal. É o grito do Ipiranga. O local exato foi fixado em 1825.
Hoje o riacho corre no bairro do mesmo nome, em boa parte canalizado, espremido pela cidade. No alto da colina ficam o Museu Paulista, que todo mundo chama de Museu do Ipiranga, e o Monumento à Independência, com a cripta onde repousam Pedro I e Leopoldina.
Um brado que quase ninguém ouviu
O hino fala no brado retumbante de um povo heroico. As testemunhas contam uma cena bem menor: um príncipe doente, uma comitiva pequena, uma guarda de uns 30 homens numa estrada de serra. O jornal O Espelho, do Rio, deu uma nota curta em 20 de setembro. Para quem viveu a época, o ato que contava era a aclamação de 12 de outubro.
O grito cresceu depois, na memória. O 7 de setembro virou data nacional por lei em 1826. Em 1895, o quadro de Pedro Américo foi exibido na abertura do Museu Paulista, perto do riacho. Como esse quadro trocou a mula por um cavalo está em Dom Pedro estava num cavalo ou numa mula?. O que Pedro disse de fato está em Quem disse ‘Independência ou morte’?.
A letra veio quase cem anos depois
O verso é bem mais novo que o grito. A melodia, do compositor Francisco Manuel da Silva, foi tocada durante décadas sem letra oficial. Os versos de Joaquim Osório Duque Estrada são do começo do século XX e só viraram oficiais em 1922, no centenário da Independência. Hoje, uma lei de 1971 regula o uso do hino e dos outros símbolos nacionais. O poeta olhou para 1822 de quase um século de distância e escolheu começar pelo lugar, não pelo príncipe.
Fontes
- Hino Nacional Brasileiro, letra de Joaquim Osório Duque Estrada, música de Francisco Manuel da Silva
- Lei nº 5.700, de 1º de setembro de 1971 (símbolos nacionais)
- O Espelho, Rio de Janeiro, 20 de setembro de 1822
- Cintra, “O Ipiranga na jornada da Independência”, Anais do Museu Paulista 31 (2023)