A resposta curta
Quer dizer que o progresso só vem sobre uma base de ordem. É o lema do positivismo, a filosofia do francês Auguste Comte, que fazia a cabeça de muitos militares e republicanos em 1889. Um decreto de 19 de novembro de 1889, quatro dias depois da República, pôs a frase na faixa branca da nova bandeira.
Revisado em
A fórmula de Comte
O francês Auguste Comte, morto em 1857, fundou o positivismo. Para ele, a humanidade passava por três estados, o teológico, o metafísico e o positivo, e no último a ciência guiaria a política. Ordem e progresso não brigavam: a ordem era o alicerce; o progresso, o objetivo.
A fórmula completa, em francês, era L’amour pour principe et l’ordre pour base; le progrès pour but: o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim. A bandeira brasileira ficou só com a segunda metade. O amor ficou de fora.
Da sala de aula para a bandeira
No Brasil, o positivismo entrou pelas escolas de engenharia e pelo exército. Na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio, o professor de matemática Benjamin Constant ensinava Comte a uma geração de cadetes: a ciência devia guiar a política, e a república era o futuro. Foram oficiais assim que, em novembro de 1889, pediram ao marechal Deodoro da Fonseca que liderasse um levante. A Constituição de 1891 chamaria Benjamin Constant de “o fundador da República”.
Havia também os positivistas ortodoxos, reunidos na Igreja Positivista do Brasil, no Rio. Dois de seus líderes, Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos, estão por trás do desenho da nova bandeira.
O que mudou em 19 de novembro
O decreto saiu quatro dias depois da proclamação da República e manteve mais do que mudou:
- O losango amarelo sobre o verde ficou. Vinha da bandeira do Império, desenhada em 1822 pelo pintor francês Jean-Baptiste Debret.
- A coroa saiu. O brasão imperial deu lugar a um globo azul.
- Entrou um céu estrelado: o céu do Rio na manhã de 15 de novembro, com o Cruzeiro do Sul. Cada estrela representa um estado; hoje são 27, contando o Distrito Federal.
- O lema ganhou uma faixa branca atravessando o globo, em letras verdes.
Hoje, 19 de novembro é o Dia da Bandeira. Uma lei de 1971 diz até hoje como ela deve ser desenhada e hasteada.
Verde das matas, amarelo do ouro?
Na escola, muita gente aprendeu que o verde são as matas e o amarelo é o ouro. As cores são mais antigas do que essa leitura. A explicação mais aceita pelos historiadores as liga à bandeira imperial: o verde da casa de Bragança, de Pedro I, e o amarelo da casa de Habsburgo, de Leopoldina. A República guardou as cores e trocou o significado, do mesmo jeito que guardou o losango e trocou o que ia dentro dele.
Nos primeiros dias, o regime novo tinha pressa de ganhar um rosto, e o positivismo lhe deu uma frase. Por que o trono tinha tão poucos defensores àquela altura, da Igreja aos fazendeiros, está em Por que a monarquia caiu no Brasil?
Fontes
- Decreto nº 4, de 19 de novembro de 1889 (bandeira e armas nacionais)
- Lei nº 5.700, de 1º de setembro de 1971 (símbolos nacionais)
- Auguste Comte, Système de politique positive (1851–1854)
- José Murilo de Carvalho, A formação das almas: o imaginário da República no Brasil (1990)