A resposta curta
Numa mula, segundo quem estava lá. O coronel Marcondes lembra que Pedro “montava uma besta baia gateada”, e o padre Belchior fala em “sua bela besta baia”. Besta, aqui, quer dizer mula, a montaria dos tropeiros da serra. O príncipe ainda vinha com disenteria. O cavalo só aparece num texto de 1854 e no quadro de 1888.
Revisado em
A estrada de Santos
Em 7 de setembro de 1822, Pedro, príncipe regente, voltava de Santos para a cidade de São Paulo. O caminho subia a serra do Mar. Uma guarda de honra de uns 30 homens ia com ele. Não era viagem de gala. E o príncipe não estava nada bem.
O padre Belchior Pinheiro de Oliveira, que viajava com ele, conta que Pedro vinha “agoniado por uma disenteria com dores que apanhara em Santos”. A guarda seguia na frente. O príncipe vinha atrás, com uma comitiva pequena. Foi esse grupo que os mensageiros Paulo Bregaro e Antônio Ramos Cordeiro alcançaram, perto do riacho Ipiranga, com cartas urgentes do Rio. O que Pedro disse depois de ler as cartas está em Quem disse ‘Independência ou morte’?.
O que as testemunhas viram
Quatro homens que estavam lá deixaram relatos daquela tarde: o padre Belchior, o coronel Marcondes, Canto e Melo e o comandante da guarda, Gama Lobo. Um estudo publicado nos Anais do Museu Paulista, em 2023, pôs os quatro lado a lado. Os que descrevem a montaria não falam em cavalo.
O coronel Marcondes, num relato de 1862, lembra que Pedro “montava uma besta baia gateada”. Belchior fala em “sua bela besta baia”. Besta, aqui, quer dizer mula, o animal que nasce do cruzamento de jumento com égua. Baia e gateada são nomes de pelagem, tons de castanho-amarelado.
A escolha não tinha nada de estranho. A mula era a montaria dos tropeiros, que subiam e desciam a serra com as cargas do porto. Aguenta mais que o cavalo e pisa firme na ladeira. Gama Lobo, o comandante da guarda, chegou a chamar de “menos verdadeira” a notícia dos jornais de que o príncipe vinha num cavalo de raça mineira.
De onde veio o cavalo
O cavalo só aparece num texto de 1854, mais de 30 anos depois. E ganha corpo de vez em 1888, na tela Independência ou Morte!, de Pedro Américo. São Paulo encomendou o quadro para o monumento que planejava no Ipiranga. O pintor trabalhou em Florença, entre 1886 e 1888, 66 anos depois da cena. A tela tem 4,15 por 7,60 metros e foi exibida na abertura do Museu Paulista, em 1895.
Pedro Américo pôs o príncipe num cavalo, de uniforme de gala, radiante, com a guarda de espadas no ar. O modelo da composição veio da França: 1807, Friedland, de Ernest Meissonier, de 1875, uma cena de cavalaria das guerras de Napoleão. Diante das críticas, o pintor se defendeu: “A realidade inspira, mas não escraviza”.
Um quadro, não uma fotografia
Então o quadro mente? Ele idealiza, como quase toda pintura histórica do século XIX. Foi feito para dar ao país uma cena de fundação, e funcionou: é o 7 de setembro que todo brasileiro viu no livro da escola. As testemunhas falam de uma mula, de uma fardeta abotoada às pressas e de um homem doente. A tela trocou tudo isso por cavalo, gala e glória.
Há uma ironia no meio. Pedro adorava cavalos: cresceu correndo entre o palácio de São Cristóvão e as cavalariças. No dia mais lembrado da vida dele, estava de mula. O bronze também preferiu o cavalo: a estátua equestre de Pedro I no centro da atual Praça Tiradentes, no Rio, é de 1862. A vida inteira desse príncipe, de Queluz à cripta do Ipiranga, está em Quem foi Dom Pedro I?.
Fontes
- Padre Belchior Pinheiro de Oliveira, relato do 7 de setembro de 1822
- Coronel Marcondes, relato de 1862; Antônio Leite Pereira da Gama Lobo, relato do 7 de setembro de 1822
- Cintra, “O Ipiranga na jornada da Independência”, Anais do Museu Paulista 31 (2023)
- Pedro Américo, Independência ou Morte! (1888), Museu Paulista da USP
- Michelli Scapol Monteiro (Museu Paulista) sobre o modelo de Meissonier, Revista Pesquisa FAPESP