História do Brasil · Mitos

A princesa Leopoldina assinou a independência do Brasil?

A resposta curta

Não do jeito que se costuma contar. Em 2 de setembro de 1822, como regente interina, Leopoldina presidiu o Conselho de Estado que defendeu o rompimento com Lisboa e escreveu a Pedro. Já o decreto de independência assinado por ela é tradição que os historiadores discutem. Quem proclamou a separação foi Pedro, cinco dias depois.

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Uma arquiduquesa no Rio

Leopoldina chegou ao Rio em 5 de novembro de 1817 para se casar com Pedro. Era filha do imperador Francisco I da Áustria e irmã de Maria Luísa, a segunda mulher de Napoleão. Trouxe junto uma missão de cientistas, como Spix e Martius, e o pintor Thomas Ender. Colecionava minerais e plantas, falava várias línguas e escrevia muitas cartas, que os historiadores leem até hoje.

Em 14 de agosto de 1822, Pedro partiu para São Paulo, para acalmar uma briga política na província. No Rio, deixou a mulher como regente interina. É nesse papel que ela entra na história da independência.

O que aconteceu em 2 de setembro

No fim de agosto, chegam notícias de Lisboa: as Cortes anulam decisões do príncipe e exigem, de novo, que ele volte para Portugal. Em 2 de setembro, Leopoldina preside o Conselho de Estado. O conselho defende o rompimento. Ela escreve ao marido, e o ministro José Bonifácio também.

Os mensageiros Paulo Bregaro e Antônio Ramos Cordeiro saem a galope com as cartas. Cinco dias depois, alcançam Pedro numa colina perto do riacho Ipiranga. O que ele fez ao ler os papéis está em Quem disse ‘Independência ou morte’?.

O decreto em discussão

Aqui começa a lenda. Muitos livros e sites contam que em 2 de setembro Leopoldina assinou um decreto de independência, e que o Brasil teria se separado ali, pela mão dela. Os historiadores discutem essa versão. O que se pode afirmar com segurança é outra coisa: ela presidiu a reunião que pediu o rompimento e mandou dizer isso a Pedro.

A tradição também põe na carta dela uma frase de efeito: “o pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrece”. Pomo é fruta. A imagem é boa, mas nenhum arquivo guarda a frase. Quem a atribui à carta é a tradição, não um documento.

Separar a lenda do documento não diminui Leopoldina. Aos 25 anos, à frente de um conselho de ministros numa hora de crise, ela empurrou o marido para a ruptura. Pedro proclamou a separação em 7 de setembro, e a aclamação de 12 de outubro selou o rompimento. Mas o empurrão saiu de uma sala no Rio que ela presidia. O ano de 1822 inteiro está em Como foi a Independência do Brasil?.

Outro mito: a queda

Leopoldina morreu em 11 de dezembro de 1826, aos 29 anos, mãe de sete filhos, entre eles o futuro Pedro II. Pedro mantinha um caso público com Domitila, a marquesa de Santos, e por muito tempo se contou que uma queda, ou uma agressão do marido, a matara. Em 2012, uma equipe da USP exumou os restos dela, que repousam na cripta do Monumento à Independência, no Ipiranga. Não achou nenhuma fratura no esqueleto. A versão da queda não se sustenta diante dos ossos.

Fontes

  • Boris Fausto, História do Brasil (1994)
  • Cintra, “O Ipiranga na jornada da Independência”, Anais do Museu Paulista 31 (2023)
  • Isabel Lustosa, D. Pedro I (2006)
  • Valdirene Ambiel, USP, exumação de D. Pedro I e de Leopoldina (2012)