A Bíblia · Tradições

Por que a Páscoa é no domingo?

A resposta curta

Porque os quatro Evangelhos dizem que as mulheres encontraram o túmulo vazio “no primeiro dia da semana”, o dia seguinte ao sábado judaico: o domingo. Os primeiros cristãos se reuniam nesse dia toda semana e o chamaram de dia do Senhor, origem da palavra domingo. A Páscoa é esse domingo celebrado uma vez por ano.

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O primeiro dia da semana

A semana judaica tinha sete dias, e só um tinha nome: o sábado, o sétimo dia, do pôr do sol de sexta ao pôr do sol de sábado (Êxodo 20:8–11). Os outros eram contados: primeiro dia, segundo dia, e assim por diante. Por isso os Evangelhos datam o túmulo vazio pelo número do dia.

Bem cedo, no primeiro dia da semana, elas foram ao sepulcro, quando o sol já havia nascido.

Marcos 16:2

Jesus tinha morrido numa sexta-feira, “o Dia da Preparação, isto é, a véspera do sábado” (Marcos 15:42), e foi sepultado às pressas antes do pôr do sol. As mulheres “descansaram de acordo com o mandamento” (Lucas 23:56) e voltaram ao amanhecer do domingo. O “terceiro dia” de Paulo (1 Coríntios 15:4) é contado à moda antiga, incluindo as pontas: sexta, sábado, domingo. O dia exato da morte é outra conversa: veja o debate sobre o dia em que Jesus morreu.

Uma Páscoa por semana

Os primeiros cristãos não esperavam um ano para lembrar a ressurreição: reuniam-se toda semana nesse dia. Em Trôade, Atos conta que, “no primeiro dia da semana, quando os discípulos estavam reunidos para partir o pão”, Paulo falou até a meia-noite, tanto que um jovem chamado Êutico pegou no sono e caiu da janela (Atos 20:7–9). Paulo pede aos coríntios que separem a coleta “no primeiro dia de cada semana” (1 Coríntios 16:2). No fim do século I o dia já tinha nome cristão: João diz que estava “no Espírito no dia do Senhor” (Apocalipse 1:10).

Por volta de 155, Justino Mártir explicou ao imperador que os cristãos se reúnem no dia do Sol porque é o primeiro dia, em que Deus fez a luz, e o dia em que Jesus ressuscitou (Primeira Apologia 67). Cada domingo era uma pequena Páscoa.

Domingo, segunda-feira, terça-feira

Os romanos usavam uma semana com nomes de astros, e o dia seguinte ao de Saturno era o do Sol. Os cristãos rebatizaram esse dia de dies Dominica, o dia do Senhor, e daí veio o nosso domingo. O português foi mais longe. É a única grande língua românica que trocou os deuses da semana pelos números que a Igreja usava em latim: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira. A tradição atribui a mudança a são Martinho de Dume, bispo de Braga no século VI, que condenava dar aos dias nomes de deuses pagãos. Sem querer, o português voltou ao costume judaico de numerar os dias e guardou o nome do sábado.

Um domingo por ano

A data anual demorou mais para se firmar. As igrejas da Ásia Menor celebravam a Páscoa no dia 14 de nisã, a data da Páscoa judaica, fosse qual fosse o dia da semana; Roma e a maioria das outras igrejas, no domingo seguinte. Por volta de 190, o bispo Vítor de Roma ameaçou romper com as igrejas da Ásia, e Irineu pediu paz (Eusébio, História Eclesiástica 5.23–25). Em 325, o Concílio de Niceia pediu que todas as igrejas celebrassem no mesmo dia, sem depender do calendário judaico, e o domingo venceu.

Hoje, no Ocidente, a Páscoa cai no primeiro domingo depois da primeira lua cheia a partir de 21 de março, entre 22 de março e 25 de abril. A palavra vem do hebraico Pesach, a festa da saída do Egito, e por isso em português o mesmo nome serve para as duas festas. Os ortodoxos aplicam a mesma regra no calendário juliano, e a data deles costuma cair mais tarde. Mas é sempre domingo.

Fontes

  • Marcos 15:42–16:8; Mateus 28:1; Lucas 23:54–24:1; João 20:1–19
  • Atos 20:7–12; 1 Coríntios 15:3–4; 16:2; Apocalipse 1:10
  • Justino Mártir, Primeira Apologia 67
  • Eusébio, História Eclesiástica 5.23–25
  • Martinho de Dume, Sobre a correção dos rústicos (século VI)

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.