A Bíblia · Fatos

Por que Jesus cresceu em Nazaré se nasceu em Belém?

A resposta curta

Porque, em Mateus, José teve medo de voltar para a Judeia quando Arquelau, filho de Herodes, assumiu o poder ali, e um sonho o mandou para Nazaré, na Galileia. Em Lucas não há o que explicar: Nazaré já era a cidade de Maria e José, e eles voltaram para lá depois do nascimento.

Revisado em

Dois Evangelhos, uma aldeia

A pergunta nasce de ler Mateus e Lucas lado a lado. Os dois põem o nascimento em Belém e a infância em Nazaré, mas ligam os dois lugares de jeitos diferentes, como explica a página sobre por que Maria e José foram a Belém. Em Lucas, a família mora em Nazaré desde o começo: o anjo Gabriel é enviado “a uma cidade da Galileia chamada Nazaré” (Lucas 1:26), e depois do parto eles simplesmente voltam para casa.

Quando cumpriram todas as coisas segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua própria cidade, Nazaré.

Lucas 2:39

Mateus não diz onde a família morava antes do nascimento. Depois da fuga para o Egito, um anjo avisa José que Herodes morreu e o manda de volta para a terra de Israel. Aí entra o motivo do desvio.

Mas, quando ouviu que Arquelau reinava na Judeia em lugar de seu pai, Herodes, teve medo de ir para lá. Sendo avisado em um sonho, retirou-se para a região da Galileia

Mateus 2:22

Arquelau, o filho que José temia

Quando Herodes, o Grande, morreu, em 4 a.C., Roma dividiu o reino entre três filhos. Arquelau ficou com a Judeia, a Samaria e a Idumeia, a terra de Belém e de Jerusalém. Augusto lhe deu o título de etnarca, e não de rei, e prometeu a coroa só se ele se mostrasse digno (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 17.317). Nunca mostrou.

O governo dele começou com sangue. Na primeira Páscoa depois da morte do pai, manifestantes encheram os pátios do Templo, e os soldados de Arquelau mataram ali cerca de três mil pessoas (Antiguidades 17.213–218). Quando ele foi a Roma pedir a confirmação da herança, uma comitiva de cinquenta judeus também foi, para pedir a Augusto que o recusasse. Muitos leitores ouvem essa viagem numa parábola de Jesus, sobre um homem nobre que vai “para um país distante para receber para si um reino”:

Mas os seus cidadãos o odiavam, e enviaram uma delegação atrás dele, dizendo: ‘Não queremos que este homem reine sobre nós.’

Lucas 19:14

Depois de nove anos de queixas, em 6 d.C., Augusto depôs Arquelau e o exilou em Vienne, no sul da Gália. A Judeia passou a ter governadores romanos, uma linha que mais tarde incluiria Pôncio Pilatos.

A Galileia de Antipas

A Galileia ficou com outro filho, Herodes Antipas, que a governou de 4 a.C. a 39 d.C. (quem foi Antipas). Também ali o começo foi violento. Nas revoltas depois da morte de Herodes, Varo, o governador romano da Síria, incendiou Séforis, a principal cidade da Galileia (Antiguidades 17.289). Antipas a reconstruiu como vitrine da região e sua primeira capital (Antiguidades 18.27). Séforis fica a uns seis quilômetros de Nazaré. Os Evangelhos nunca a citam, mas alguns historiadores se perguntam se José, que era construtor, não encontrou trabalho por lá.

Jesus, o nazareno

Lucas resume os anos na aldeia em poucas palavras: o menino crescia, “enchendo-se de sabedoria” (Lucas 2:40), e depois da visita ao Templo aos doze anos “desceu com eles e foi para Nazaré” (2:51). A aldeia grudou nele. Num mundo sem sobrenome, a pessoa era conhecida pelo pai ou pela cidade: José de Arimateia, Simão de Cirene, Maria Madalena, de Magdala. Jesus, Yeshua, era um nome comum, e “de Nazaré” dizia de qual Jesus se tratava. Em Jerusalém, a multidão o chama de “Jesus, de Nazaré da Galileia” (Mateus 21:11), e a placa de Pilatos na cruz diz “JESUS DE NAZARÉ, O REI DOS JUDEUS” (João 19:19). Em português, ele também ficou conhecido como o Nazareno.

Mateus vê ainda outro motivo: a mudança cumpria a palavra de que “ele será chamado Nazareno” (Mateus 2:23), um enigma tratado em onde fica Nazaré. Já adulto, Jesus deixou a aldeia e foi morar em Cafarnaum, à beira do lago (Mateus 4:13). O nome da aldeia, porém, nunca mais o largou.

Fontes

  • Mateus 2:13–23; 4:13; 21:11
  • Lucas 1:26; 2:1–7, 39–52; 19:11–27; João 19:19
  • Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 17.213–218, 17.289, 17.299–323, 17.342–344; 18.27
  • Flávio Josefo, Guerra dos Judeus 2.111

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.