A Bíblia · Fatos

Por que Maria e José foram para Belém?

A resposta curta

Por causa de um recenseamento, diz Lucas. César Augusto mandou recensear o mundo, e José, da casa e família de Davi, foi se registrar em Belém, a cidade de Davi, com Maria, que estava grávida. De Nazaré são cerca de 150 quilômetros, cinco dias ou mais a pé. Mateus conta diferente: nele, a família parece já morar em Belém.

Revisado em

O que Lucas diz

Lucas põe o motivo numa única frase comprida.

José também subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, para a Judeia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser ele da casa e família de Davi, a fim de recensear-se com Maria, que estava prometida em casamento a ele e estava grávida.

Lucas 2:4–5

Há duas razões nessa frase: uma ordem de Roma e uma árvore genealógica. A ordem é o decreto de César Augusto “para que todo o mundo fosse recenseado” (Lucas 2:1), e “todos iam recensear-se, cada um à sua própria cidade” (Lucas 2:3). Hoje o recenseador do IBGE bate à porta; em Lucas, é a família que viaja. A árvore genealógica é a de Davi.

Por que a cidade de Davi?

Belém foi onde Davi cresceu e onde Samuel o ungiu, o filho caçula de “Jessé, o belemita” (1 Samuel 16:1). Lucas a chama de “cidade de Davi”, um título que a Bíblia hebraica dá à fortaleza de Sião, em Jerusalém (2 Samuel 5:7). Lucas o entrega à aldeia do rei pastor. E Belém carregava uma promessa.

Mas você, Belém Efrata, embora seja pequena entre os clãs de Judá, de você sairá para mim aquele que governará Israel.

Miqueias 5:2

No tempo de Jesus, muitos esperavam que o Messias viesse da família e da aldeia de Davi. João registra uma multidão em Jerusalém dizendo isso mesmo: “Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de Davi, e de Belém, a aldeia onde Davi viveu?” (João 7:42). Em Lucas, o recenseamento é o que leva uma família de Nazaré até lá.

Um censo mandava as pessoas para a terra dos antepassados?

Aqui os historiadores tropeçam. Roma contava as pessoas onde elas moravam e tinham bens, e nenhum censo romano conhecido mandava alguém para a cidade dos antepassados. O paralelo mais próximo é um edito de Caio Víbio Máximo, prefeito do Egito, em 104 d.C., que manda quem vive fora de casa voltar ao seu distrito para o censo das famílias. É uma volta à própria residência, não à cidade de um ancestral. Alguns leitores sugerem que José tinha terras de família em Belém; Lucas não diz. Há ainda um problema de data: Josefo situa o censo de Quirino em 6 d.C., anos depois da morte de Herodes, um enigma explicado na página sobre o 25 de dezembro.

A estrada de Nazaré

De Nazaré a Belém são cerca de 150 quilômetros, cinco dias ou mais a pé. Lucas nunca diz por onde foram. Os galileus que subiam para as festas costumavam pegar a estrada das colinas, atravessando Samaria (Antiguidades Judaicas 20.118), três dias até Jerusalém para quem andava depressa, diz Josefo (Vida 269). Outros desciam o vale do Jordão, passavam por Jericó e subiam até Jerusalém. Belém fica 9 quilômetros depois. As famílias costumavam viajar em grupo, com parentes e vizinhos, como esta faz mais tarde, voltando da Páscoa (Lucas 2:44).

Dois detalhes queridos não estão no texto. Não há jumento: Lucas não diz como Maria viajou, e o animal veio da arte posterior e do presépio. E não há corrida contra o relógio. Lucas diz apenas: “Enquanto estavam lá, chegou o dia de ela dar à luz” (Lucas 2:6). Eles podem ter passado dias em Belém.

O quadro diferente de Mateus

Mateus não fala de recenseamento nem de viagem para o sul. No Evangelho dele, Jesus nasce em Belém, os magos encontram a família numa casa ali (Mateus 2:11), e só depois da fuga para o Egito José a leva para Nazaré, porque Arquelau, filho de Herodes, reina na Judeia (Mateus 2:22–23). Lucas começa em Nazaré e leva a família a Belém. Mateus começa em Belém e a leva a Nazaré. Os dois concordam nos dois lugares que importam: Belém para o nascimento, Nazaré para a infância.

Fontes

  • Lucas 2:1–7, 39–44
  • Miqueias 5:2; 1 Samuel 16:1–13; 2 Samuel 5:7; João 7:42
  • Mateus 2:1–23
  • Flávio Josefo, Vida 269; Antiguidades Judaicas 18.1–2; 20.118
  • Edito de Caio Víbio Máximo, prefeito do Egito, 104 d.C. (Papiro de Londres 904)

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.