A resposta curta
A Bíblia não diz. O Êxodo o chama só de Faraó, o título do rei do Egito. O favorito é Ramsés II, porque os hebreus constroem uma cidade chamada Ramessés, e ele reinou de 1279 a 1213 a.C. Quem segue 1 Reis 6:1, que põe o Êxodo por volta de 1446 a.C., aponta Tutmés III ou Amenófis II.
Revisado em
Um rei sem nome
O Êxodo começa com uma troca de governo.
Ora, levantou-se um novo rei sobre o Egito, que não conhecia a José.
Daí até o mar, o livro nunca diz como ele se chamava. Dá o nome das duas parteiras hebreias que o desafiam, Sifrá e Puá, mas o homem mais poderoso da terra é só Faraó. Na verdade são dois: o rei da escravidão morre enquanto Moisés está em Midiã (Êxodo 2:23), e o sucessor é quem enfrenta as pragas. A própria palavra vem do egípcio per-aa, “casa grande”, o palácio, que no Novo Império passou a designar também o rei que morava nele. A Bíblia só dá nome a um rei egípcio séculos depois: Sisaque, no tempo de Salomão (1 Reis 11:40), em geral identificado com o Shoshenq I dos registros egípcios.
A favor de Ramsés II
A pista é um nome de lugar. Os escravos hebreus constroem “cidades-armazéns para o Faraó: Pitom e Ramsés” (Êxodo 1:11), e a saída do Egito começa em Ramessés (Êxodo 12:37). Isso bate com Pi-Ramsés, “casa de Ramsés”, a capital de Ramsés II no delta, na atual Qantir. Ramsés reinou sessenta e seis anos, de 1279 a 1213 a.C., e construiu em escala colossal. Pouco depois da morte dele, o filho, Merneptá, mandou gravar uma estela de vitória, por volta de 1208 a.C., que cita Israel como um povo já instalado em Canaã. É a menção mais antiga de Israel fora da Bíblia, hoje no Museu Egípcio do Cairo, e combina com um Êxodo no século XIII a.C.
Na tela, a questão foi resolvida há tempos. Os Dez Mandamentos (1956), de Cecil B. DeMille, e a animação O Príncipe do Egito (1998) fazem de Ramsés o rival de Moisés, e muitos brasileiros o conhecem da novela Os Dez Mandamentos, da Record, de 2015.
A favor de um rei mais antigo
A conta da própria Bíblia aponta para outro lado.
No quadringentésimo octogésimo ano depois que os filhos de Israel saíram da terra do Egito, no quarto ano do reinado de Salomão sobre Israel, no mês de Zive, que é o segundo mês, ele começou a edificar a casa do SENHOR.
O quarto ano de Salomão cai por volta de 966 a.C.; 480 anos antes dá cerca de 1446 a.C., na XVIII dinastia egípcia. Quem toma o número ao pé da letra sugere Tutmés III, o grande rei guerreiro, ou o filho dele, Amenófis II, que reinaram no século XV a.C. Para esses leitores, Ramessés é um nome posterior dado a um lugar mais antigo, tanto que o Gênesis já chama a região de José de “terra de Ramessés” (Gênesis 47:11), muito antes de qualquer rei Ramsés. Outros leem 480 como número redondo, doze gerações de quarenta anos. Uma resposta ainda mais antiga veio de Flávio Josefo, que se apoiou no sacerdote egípcio Maneton e ligou o Êxodo à expulsão dos hicsos, por volta de 1550 a.C. (Contra Apião 1). Por isso vários padres da Igreja apontaram Amósis I.
O que o Egito lembra
Os registros egípcios nunca citam Moisés, e as inscrições reais quase nunca admitiam derrotas, então o silêncio não resolve nada. Mais um detalhe importa. O Êxodo diz que o mar cobriu “todo o exército de Faraó” (Êxodo 14:28), mas não diz que o rei se afogou. Um salmo canta que Deus “derrubou o faraó e o seu exército no Mar Vermelho” (Salmos 136:15), e o Alcorão diz que o Faraó se afogou e que o seu corpo foi preservado como sinal (Alcorão 10:90–92). Ramsés II morreu velho, com cerca de noventa anos; a múmia, achada num esconderijo real em 1881, está hoje no Museu Nacional da Civilização Egípcia, no Cairo. Para a disputa em si, veja as dez pragas.
Fontes
- Êxodo 1:1–2:25; 5:1–2; 12:37–42; 14:5–31
- Gênesis 47:11; 1 Reis 6:1; 1 Reis 11:40; Salmos 136:15
- Estela de Merneptá (c. 1208 a.C.), Museu Egípcio do Cairo
- Flávio Josefo, Contra Apião 1 (citando Maneton); Alcorão 10:90–92
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.