A resposta curta
Ninguém pode confirmar. A Igreja Ortodoxa Etíope afirma que a Arca fica numa capela ao lado da Igreja de Santa Maria de Sião, em Aksum, e que só um monge guardião pode vê-la. A tradição vem do Kebra Nagast, uma epopeia do século XIV. O objeto nunca foi examinado, e a Bíblia não diz para onde a Arca foi.
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O que diz a igreja de Aksum
Aksum, ou Axum, no planalto do norte da Etiópia, foi a capital de um reino antigo cujo rei, Ezana, se tornou cristão no século IV. A Igreja de Santa Maria de Sião, fundada no reinado dele segundo a tradição, foi destruída e reconstruída várias vezes, e ganhou ao lado uma grande catedral nova em 1964. Perto dela fica uma pequena capela, paga pela imperatriz Menen, mulher de Haile Selassie. A Igreja Ortodoxa Etíope afirma que a Arca da Aliança está lá dentro.
Quem cuida dela é um único monge. Ele é escolhido para o resto da vida pelo guardião anterior e passa os dias na capela, rezando e queimando incenso. Só ele pode olhar a Arca. Ninguém mais, diz a igreja, pode vê-la.
Além disso, toda igreja ortodoxa etíope guarda um tabot, uma tábua consagrada que representa a Arca e as tábuas da Lei. No Timkat, a Epifania etíope, os tabots saem em procissão, cobertos de panos bordados. Na Etiópia, a Arca não é só uma relíquia perdida. De certo modo, ela está em cada igreja.
De onde vem a história
A tradição remonta ao Kebra Nagast, a “Glória dos Reis”, escrito em ge’ez, a língua clássica da Etiópia, no começo do século XIV. O livro faz da rainha de Sabá a mãe de Menelik, filho de Salomão. Quando Menelik deixa Jerusalém, os primogênitos dos anciãos da cidade roubam a Arca à noite e partem com ele, deixando no Santo dos Santos umas tábuas de madeira debaixo da cobertura dela.
O livro servia a uma dinastia que tinha tomado o trono no século XIII e se dizia salomônica. Seus reis seriam herdeiros de Salomão, e a Etiópia, o novo Israel, guardiã da Arca. Os estudiosos veem na obra uma costura de lendas mais antigas, bíblicas, judaicas, cristãs e islâmicas.
O que a Bíblia diz que aconteceu
A pista da própria Bíblia vai na direção contrária. Os sacerdotes de Salomão colocam a Arca na sala interior do Templo (1 Reis 8:6). Três séculos depois, segundo o relato de Crônicas, ela continua em Judá, quando o rei Josias, por volta de 622 a.C., dá uma ordem a respeito dela.
Coloquem a arca santa na casa que Salomão, filho de Davi, rei de Israel, construiu. Ela não será mais um peso sobre os seus ombros.
Depois disso, ela some. Quando a Babilônia queima o Templo, em 586 a.C., 2 Reis 25:13–17 enumera as colunas de bronze, o mar de bronze e as panelas levadas, e não diz uma palavra sobre a Arca. Ela também não aparece entre os 5.400 utensílios devolvidos em Esdras 1. Jeremias chega a prever um tempo em que ninguém sentirá falta dela (Jeremias 3:16). E quando Pompeu entrou no Santo dos Santos, em 63 a.C., encontrou o santuário vazio, segundo Tácito (Histórias 5.9).
Outras tradições preenchem o vazio. O segundo livro dos Macabeus conta que Jeremias escondeu a Arca numa caverna no monte de onde Moisés viu a Terra Prometida e fechou a entrada (2 Macabeus 2:4–8). O Talmude registra rabinos discutindo se ela foi levada para a Babilônia ou escondida debaixo do próprio Templo (Yoma 53b–54a).
O que dá e o que não dá para checar
A igreja existe, e a tradição tem pelo menos setecentos anos. Já a afirmação em si nunca foi testada. Nenhum estudioso de fora pôde examinar ou datar o objeto. Em 1992, Edward Ullendorff, especialista em Etiópia, disse que, como oficial do exército britânico, tinha visto a peça em 1941, e a descreveu como uma caixa vazia, de fabricação medieval. A palavra dele também não pode ser conferida.
A maioria dos historiadores duvida que a Arca tenha saído de Jerusalém no tempo de Salomão, já que a própria Bíblia a mantém lá por séculos. É aí que a evidência termina. A Arca de Aksum pertence à fé e à tradição, e quem a guarda escolheu não submetê-la a provas.
Fontes
- 1 Reis 8:1–11; 2 Crônicas 35:3
- 2 Reis 25:8–17; Esdras 1:7–11; Jeremias 3:16
- 2 Macabeus 2:4–8
- Talmude Babilônico, Yoma 53b–54a
- Tácito, Histórias 5.9
- Kebra Nagast, capítulo 48
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.