A resposta curta
Não. A ideia é quase dois séculos mais velha. Os inconfidentes planejavam uma capital no interior em 1789, José Bonifácio propôs “Petrópole ou Brasília” em 1823, e a Constituição de 1891 reservou 14.400 km² no Planalto Central. JK prometeu a mudança num comício em Jataí, em 1955, e foi quem a tirou do papel.
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Uma pergunta em Jataí
Jataí, no sudoeste de Goiás, 4 de abril de 1955. Num dos primeiros comícios da campanha, o candidato Juscelino Kubitschek promete cumprir a Constituição de ponta a ponta. Um rapaz da cidade, Antônio Soares Neto, o Toniquinho, levanta a mão e pergunta: se o senhor vai cumprir a Constituição, vai mudar a capital para o Planalto Central? A plateia espera. Dizer não seria desmentir o discurso. Juscelino hesita e responde que sim.
Quem contou a cena foi o próprio JK, em Por que construí Brasília, de 1975. Anos depois do comício, ele escreveu que até ali não tinha pensado no assunto. Há quem duvide. O historiador Ronaldo Costa Couto trata o episódio como lenda, porque a ideia já rondava a campanha. Seja como for, a pergunta de Toniquinho não tinha nada de nova. A Constituição em vigor, a de 1946, mandava mudar a capital. A de 1891 também. E o sonho era mais velho que as duas.
Quase dois séculos de espera
- 1789: os inconfidentes de Minas, Tiradentes entre eles, planejam pôr a capital da república deles em São João del-Rei, longe do mar.
- 1823: José Bonifácio propõe à Assembleia Constituinte uma capital no interior e sugere até o nome: Petrópole, ou Brasília.
- 1883: o padre italiano João Bosco, que nunca pisou no Brasil, conta um sonho. Entre os paralelos 15 e 20, perto de um lago, surgiria uma terra prometida, de riqueza inconcebível.
- 1891: a primeira Constituição da República reserva 14.400 km² no Planalto Central para a futura capital.
- 1892 a 1894: a Missão Cruls mede e demarca o quadrilátero.
- 1922: no centenário da Independência, lançam uma pedra fundamental perto de Planaltina.
- 1946: a nova Constituição manda mudar a capital outra vez.
Entre a Constituição de 1891 e o comício de Jataí, foram 64 anos em que a capital só existiu no papel. Brasília fica entre os paralelos 15 e 16 e tem Dom Bosco como padroeiro. O lago do sonho não existia: foi represado em 1959.
O astrônomo que mediu o sonho
O homem que pôs a capital no mapa nasceu longe daqui. Luiz Cruls era belga, de Diest, chegou ao Brasil em 1874, se naturalizou brasileiro e dirigia o Observatório do Rio quando o governo o mandou ao planalto, em 1892. A comissão dele passou meses no sertão: mediu, fotografou, coletou plantas e marcou no mapa um quadrilátero de 14.400 km², o “Quadrilátero Cruls”. O relatório saiu em 1894. Depois, foi para a gaveta. Cruls morreu em Paris em 1908, 52 anos antes da inauguração da cidade que ajudou a localizar.
O que coube a JK
A ideia não era dele. O que Juscelino fez foi transformar um artigo esquecido em obra com prazo. Em abril de 1956, já presidente, assinou em Anápolis, Goiás, uma mensagem ao Congresso com a meta que faltava no Plano de Metas, a que chamou de meta-síntese: a nova capital. Em setembro, uma lei criou a Novacap, e o artigo 33 deu à cidade um dos nomes que Bonifácio tinha sugerido. Em 1957, outra lei marcou a data. Em 21 de abril de 1960, a capital foi inaugurada. As razões de tanta gente querer uma capital longe da costa estão em Por que a capital do Brasil mudou para Brasília?, e a conspiração de 1789, em O que foi a Inconfidência Mineira?.
Fontes
- Constituição de 24 de fevereiro de 1891, art. 3º
- Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central (Missão Cruls, 1894)
- Lei nº 2.874, de 19 de setembro de 1956, art. 33 (o nome Brasília)
- Juscelino Kubitschek, Por que construí Brasília (1975)
- Câmara dos Deputados, Brasília: capital e mudança