A resposta curta
Não. Homero nunca descreve o corpo das sereias: registra só o canto, entoado num prado à beira-mar. Os pintores de vasos gregos, desde cerca de 700 a.C., as mostravam como pássaros com cabeça de mulher. A cauda de peixe só se firmou na Idade Média. Em português, uma só palavra, sereia, acabou nomeando as duas criaturas.
Revisado em
Uma palavra, duas criaturas
Em inglês, siren é a cantora que leva marinheiros à morte, e mermaid é a moça com rabo de peixe que vive no mar. Em português não existe essa separação: as duas são sereia, como em francês, espanhol e italiano. Por isso a pergunta faz tanto sentido para nós. Quando um brasileiro ouve falar das sereias de Ulisses, logo imagina a Pequena Sereia sentada num rochedo. Homero imaginava outra coisa, ou melhor, não deixou nada por escrito sobre a aparência delas.
O que Homero diz, e o que não diz
No canto 12 da Odisseia, Circe conta a Odisseu onde elas ficam: num prado verde à beira-mar, rodeadas de montes de ossos, pouco antes do estreito de Cila e Caríbdis. Quando o navio se aproxima, elas o convidam a “ouvir as nossas duas vozes”. É só isso. O verso informa quantas são, duas, e mais nada: nem cauda, nem asas, nem cabelo, nem mergulho. O que interessa ao poeta é o que elas dizem, uma promessa de conhecimento, e é por isso que Odisseu se amarrou ao mastro para ouvir.
Mulheres-pássaro nos vasos
Os artistas gregos preencheram o silêncio com penas. Desde cerca de 700 a.C., as sereias aparecem em vasos e esculturas como aves com cabeça de mulher, às vezes com braços para tocar lira. O exemplo mais famoso é o Vaso das Sereias, do Museu Britânico, um jarro ateniense de cerca de 480 a.C.: Odisseu está amarrado ao mastro, as sereias pousam nas rochas com corpo de pássaro, e uma delas despenca rumo ao mar. Autores posteriores explicaram as asas. Apolodoro fala em três sereias, filhas do rio Aqueloo e da musa Melpômene, e diz que “das coxas para baixo tinham forma de pássaro”. Ovídio pergunta a elas sem rodeios:
Ó donzelas sereias, por que vocês têm os pés e as penas das aves, embora conservem o rosto de virgem?
A resposta dele: eram companheiras de Perséfone, que Ovídio chama de Prosérpina, e, quando a deusa sumiu, pediram asas para procurá-la por cima do mar.
De onde veio o rabo de peixe
A cauda se firmou na Idade Média. O texto mais antigo que se conhece a dar cauda às sereias é o Liber monstrorum, um livro latino de monstros do começo do século VIII, que as descreve como moças do mar, com corpo de donzela e cauda de peixe coberta de escamas. Os bestiários medievais espalharam a imagem, às vezes misturando penas e escamas. Quando Hans Christian Andersen publicou A Pequena Sereia, em 1837, a cantora do prado já morava debaixo das ondas, e a isca tinha mudado: o amor no lugar do saber. No Brasil, a Iara do folclore, que atrai os homens para o fundo dos rios com o canto, costuma ser desenhada assim, com rabo de peixe.
Sereia e sirene
A palavra ainda deu mais uma volta. Em 1819, o inventor francês Charles Cagniard de la Tour construiu um disco giratório que uivava e soava até debaixo d’água, e por isso o batizou de sirène, sereia em francês. Daí veio a nossa sirene. A ambulância que passa na rua carrega a palavra de Homero, mas não o monstro dele.
Fontes
- Homero, Odisseia 12.39–54 e 12.158–200
- Apolodoro, Biblioteca 1.3.4 e Epítome 7.18–19
- Ovídio, Metamorfoses 5.551–563
- Vaso das Sereias, estamno ateniense de figuras vermelhas, c. 480 a.C., Museu Britânico
- Liber monstrorum (começo do século VIII)