A resposta curta
Calcanhar de Aquiles é o único ponto fraco de algo ou alguém que, no resto, é forte: o lugar onde um golpe pode ser fatal. Vem do mito de que Aquiles foi mergulhado no rio Estige quando bebê e só podia ser ferido onde a mãe o segurou. Homero nunca diz isso: o mergulho aparece por volta de 95 d.C.
Revisado em
Como a expressão é usada
No Brasil, ninguém precisa conhecer a Ilíada para dizer que a defesa é o calcanhar de Aquiles do time, que matemática é o calcanhar de Aquiles do aluno ou que a logística é o calcanhar de Aquiles de uma empresa. A ideia é sempre a mesma: algo muito forte com um único ponto vulnerável, e é justamente por ali que vem a derrota. Só que essa imagem de um corpo invulnerável com uma brecha não é de Homero. É uma história da época romana.
O Aquiles de Homero sangra
Na Ilíada, Aquiles é o melhor dos aqueus, como Homero o chama, mas pode ser ferido como qualquer um. No canto 21, à beira do rio Escamandro, Asteropeu, um aliado dos troianos que lançava com as duas mãos, atira duas lanças ao mesmo tempo. Uma fica presa no escudo. A outra, nas palavras do poema, “raspou o cotovelo do braço direito de Aquiles, tirando sangue escuro” (21.166–168). O que protege o herói de Homero é a velocidade, a habilidade e uma armadura forjada pelo deus Hefesto. Ele sabe que vai morrer jovem, e o poema inteiro se apoia nisso.
De onde vem o mergulho no Estige
O registro mais antigo está na Aquileida, de Estácio, um poema em latim que o autor deixou inacabado ao morrer, por volta de 96 d.C., uns oitocentos anos depois de Homero. Tétis, implorando que o filho já adulto se esconda da guerra, recorda o que fez quando ele nasceu:
se, quando você nasceu, eu o fortaleci com as duras águas do Estige
E completa: “ah, quem dera por inteiro!” A proteção ficou incompleta. Estácio não diz onde estava a falha; versões posteriores a colocam no calcanhar, por onde ela o segurou.
Fogo, ambrosia e um tornozelo emprestado
Os gregos contavam outra coisa. Apolodoro, como Apolônio de Rodes antes dele, diz que Tétis escondia o bebê no fogo à noite, para queimar o que nele era mortal, e o untava com ambrosia de dia, até que Peleu a flagrou, gritou, e ela partiu para o mar (Biblioteca 3.13.6). Uma versão tardia ainda mais estranha, reunida nas notas de Frazer a Apolodoro, conta que Peleu tirou o menino do fogo quando só um osso do tornozelo tinha queimado e o trocou pelo de um gigante veloz chamado Dâmiso. O próprio Apolodoro diz que a flecha fatal acertou Aquiles no tornozelo (Epítome 5.3). O ponto fraco foi descendo para o pé muito antes de parar no calcanhar.
Do calcanhar ao tendão
A anatomia guardou o nome. Em 1693, o anatomista flamengo Philip Verheyen registrou em latim chorda Achillis, a corda de Aquiles, para o tendão grosso que liga os músculos da panturrilha ao osso do calcanhar, o uso impresso mais antigo que se conhece. No Brasil, a nomenclatura anatômica prefere “tendão calcâneo”, mas na conversa e no noticiário esportivo ele continua sendo o tendão de Aquiles. Os manuais o descrevem como o mais forte do corpo, e a ruptura dele é o pesadelo de muito atleta. Como Aquiles morreu, com a flecha de Páris na porta Ceia, está em Como Aquiles morreu?, e o poema que nunca fala do calcanhar está em Sobre o que é a Ilíada?
Fontes
- Homero, Ilíada 21.139–183
- Estácio, Aquileida 1.133–134 e 1.268–270
- Apolodoro, Biblioteca 3.13.6 e Epítome 5.3
- Apolônio de Rodes, Argonáuticas 4.869–879
- Philip Verheyen, Corporis humani anatomia (Lovaina, 1693)