A resposta curta
Não há prova de que tenha existido. Nenhum vestígio de um cavalo de madeira foi achado em Troia, e a Ilíada de Homero nem fala nele. A história vem da Odisseia, de poemas perdidos sobre a guerra e da Eneida, de Virgílio, que divergem nos detalhes: cinquenta homens lá dentro numa versão, três mil em outra.
Revisado em
Fora da Ilíada
A Ilíada termina no funeral de Heitor, antes do fim da guerra, por isso o cavalo não aparece nela. As menções mais antigas estão na Odisseia, onde Homero trata o cavalo como uma história que todo mundo já conhece. No canto 4, Menelau recorda que Helena deu três voltas em torno dele, chamando os chefes escondidos pelo nome, com a voz das esposas de cada um, enquanto Odisseu tapava com as mãos a boca de um guerreiro chamado Anticlo para que ele não respondesse. No canto 8, Odisseu pede ao cantor Demódoco que cante o cavalo que Epeu fez com a ajuda de Atena. O cantor termina assim:
pois a cidade estava condenada quando acolheu aquele cavalo, dentro do qual estavam todos os mais valentes dos argivos, à espera de levar morte e destruição aos troianos.
No canto 11, Odisseu conta ao fantasma de Aquiles que coube a ele decidir a hora de abrir a porta.
Quem construiu e quem estava dentro
O construtor é Epeu, filho de Panopeu. Na Ilíada ele é o campeão de pugilato nos jogos fúnebres de Pátroclo e admite que não é grande coisa na batalha de verdade, porque “ninguém pode ser bom em tudo” (Ilíada 23.670–671). Os poemas perdidos resumidos por Proclo dizem que ele fez o cavalo por instrução de Atena. Apolodoro acrescenta que a madeira foi cortada no monte Ida e que o cavalo era oco, com uma abertura no flanco e uma inscrição dedicando-o a Atena pelo regresso dos gregos. O número de homens lá dentro muda conforme a fonte: Apolodoro fala em cinquenta e diz que a Pequena Ilíada falava em três mil. A Odisseia já cita alguns: Odisseu, Menelau, Diomedes e Neoptólemo, filho de Aquiles.
Como o truque funcionou
A versão mais completa que sobreviveu está na Eneida, de Virgílio, escrita nos anos 20 a.C. Os gregos queimam o acampamento e escondem a frota atrás da ilha de Tênedos. Um grego chamado Sínon se deixa capturar e jura que o cavalo é uma oferenda a Atena, feito grande demais para passar pelos portões. O sacerdote Laocoonte crava uma lança no cavalo e é calado por serpentes vindas do mar; o aviso dele, que deu origem ao nosso “presente de grego”, está em De onde vem a expressão ‘presente de grego’? Os troianos derrubam um trecho da própria muralha para puxar o cavalo para dentro. Na Odisseia e no Saque de Troia, eles antes discutem o que fazer: quebrar ou queimar o cavalo, jogá-lo dos rochedos ou guardá-lo como oferenda.
Existe alguma prova?
Em Troia, nenhuma, e um cavalo de madeira dificilmente sobreviveria. A imagem mais antiga que se conhece está num grande jarro de barro achado na ilha de Míconos, feito por volta de 670 a.C.: o cavalo tem rodas, e guerreiros espiam por janelinhas na lateral. Leitores antigos já desconfiavam da versão ao pé da letra. Pausânias, no século II d.C., dizia que quem não achasse os troianos completamente tolos sabia que o cavalo tinha sido uma máquina de cerco para romper muralhas (1.23.8). Hipóteses modernas, nenhuma comprovada, falam de um navio, já que Penélope chama os navios de cavalos do mar (Odisseia 4.708), ou de um terremoto mandado por Poseidon, deus dos cavalos e dos terremotos. Se a guerra em si aconteceu é outra conversa: A Guerra de Troia aconteceu de verdade?
O cavalo de Troia hoje
Desde o início dos anos 1970, “cavalo de Troia” também é o nome de um programa que esconde um estrago dentro de algo que você mesmo deixa entrar no computador. No dia a dia, a expressão serve para qualquer coisa que entra com cara de presente e trabalha contra quem a recebeu. É a herança mais viva da história: a confiança transformada em arma.
Fontes
- Homero, Odisseia 4.271–289, 8.492–520, 11.523–537
- Homero, Ilíada 23.664–699
- Proclo, resumos da Pequena Ilíada e do Saque de Troia
- Apolodoro, Epítome 5.14–19
- Virgílio, Eneida 2.13–267
- Pausânias, Descrição da Grécia 1.23.8
- Jarro em relevo com o cavalo de madeira, c. 670 a.C., Museu Arqueológico de Míconos