A resposta curta
Pomo da discórdia é aquilo que provoca briga entre pessoas que antes se davam bem. A expressão vem do mito de Éris, a Discórdia, que no casamento de Peleu e Tétis fez as deusas brigarem para saber qual era a mais bela. Autores posteriores lhe deram um pomo de ouro. Páris julgou a disputa, escolheu Afrodite e ganhou Helena.
Revisado em
Uma expressão do dia a dia
No Brasil, o pomo da discórdia aparece em conversa de família e em manchete: a herança que virou o pomo da discórdia entre os irmãos, o pênalti polêmico que é o pomo da discórdia do clássico, a vaga de garagem que separa vizinhos. É sempre aquele objeto ou assunto que transforma aliados em rivais. A palavra pomo, que hoje quase ninguém usa sozinha, é o nome antigo e literário de fruta, vindo do latim pomum; sobrevive em expressões como esta e no pomo de adão. O pomo do mito costuma ser imaginado como uma maçã de ouro.
A Discórdia no casamento
A versão mais antiga é um resumo em prosa dos Cantos Cíprios, um poema perdido sobre o começo da guerra, preservado pelo estudioso Proclo. Os deuses estão no banquete do casamento do rei mortal Peleu com a deusa do mar Tétis quando chega a Discórdia e faz Hera, Atena e Afrodite discutirem sobre qual delas é a mais bela. Só isso: nem fruta, nem inscrição, nem convite negado. Homero também conhece esse casamento: no canto 24 da Ilíada, Hera lembra aos outros deuses que todos foram à festa. E menciona a disputa uma única vez, quando diz que Hera e Atena nunca perdoaram Páris por desprezar as deusas que foram até ele no curral (Ilíada 24.29–30).
Como o pomo apareceu
O objeto famoso veio depois. Apolodoro, autor de um manual de mitos da época do Império Romano, diz que a Discórdia lançou um pomo como prêmio de beleza (Epítome 3.2). Em outras versões, o pomo é de ouro e traz uma inscrição, em grego têi kallístei, “à mais bela”. Outros autores explicaram por que Éris apareceu: não tinha sido convidada. A cada versão, a causa da briga ficava mais concreta, e foi o pomo que os pintores e o ditado guardaram.
O julgamento de Páris
Zeus não quis julgar a disputa: uma das concorrentes era a esposa dele, e Homero chama as outras duas de filhas de Zeus (Hesíodo dá a Afrodite outro nascimento, contado em Como Afrodite nasceu?). Nos Cantos Cíprios:
As três são levadas por Hermes, por ordem de Zeus, até Alexandre, no monte Ida, para que ele decida; e Alexandre, seduzido pela promessa de casamento com Helena, decide em favor de Afrodite.
Alexandre é Páris, filho do rei Príamo, de Troia. Apolodoro explica por que um príncipe cuidava de gado: antes do parto, a mãe, Hécuba, sonhou que dava à luz uma tocha que incendiava a cidade, e o bebê foi abandonado no Ida. Uma ursa o amamentou por cinco dias, até que o servo Agelau o levou para casa e o criou (Biblioteca 3.12.5). Cada deusa ofereceu um suborno:
- Hera: um reino sobre todos os homens.
- Atena: a vitória na guerra.
- Afrodite: a mulher mais bela do mundo, Helena de Esparta, que já era casada com Menelau.
O preço da escolha
Páris ficou com a oferta de Afrodite. Hera e Atena viraram inimigas de Troia e, ao longo de toda a Ilíada, lutam pelos gregos. O que veio depois está em Por que começou a Guerra de Troia? e em Quem foi Helena de Troia? A cena encantou artistas, de um pintor de vasos de Atenas por volta de 465 a.C. a Rubens, mas quem ficou mesmo na língua foi o pomo.
Fontes
- Proclo, Crestomatia, resumo dos Cantos Cíprios
- Apolodoro, Biblioteca 3.12.5 e Epítome 3.2
- Homero, Ilíada 24.25–30 e 24.55–63