A resposta curta
A Ilíada é sobre a cólera de Aquiles. O poema de Homero cobre uns 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia: Aquiles briga com Agamêmnon por causa da cativa Briseida e para de lutar, perde o amigo Pátroclo, mata Heitor por vingança e, no fim, devolve o corpo ao pai dele, Príamo. Termina com o funeral de Heitor.
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O primeiro verso já diz tudo
“Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, filho de Peleu, que trouxe aos aqueus incontáveis males.” A primeira palavra do grego é mênin, cólera, e esse é o assunto. O título quer dizer apenas o poema de Ílion, o outro nome de Troia, e por isso muita gente espera a guerra inteira. O que encontra é algo mais estreito e mais fundo. A Ilíada começa depois de nove anos de cerco, cobre uns cinquenta e um dias e para antes da queda da cidade. Tem vinte e quatro cantos, cerca de 15.700 versos, e costuma ser datada entre o fim do século VIII e o século VII a.C. Heródoto achava que Homero tinha vivido uns quatrocentos anos antes dele (2.53).
Resumo da Ilíada, canto a canto
- A briga (canto 1). Apolo manda uma peste ao acampamento grego. Agamêmnon precisa devolver a filha de um sacerdote e, para compensar, toma a cativa de Aquiles, Briseida. Aquiles se retira e pede à mãe, Tétis, que convença Zeus a favorecer os troianos.
- Os exércitos (cantos 2 a 7). O Catálogo das Naus; Páris e Menelau lutam em duelo; Helena aponta os chefes gregos do alto das muralhas; Heitor se despede de Andrômaca e do filho pequeno.
- Os gregos em apuros (cantos 8 a 15). Aquiles recusa os presentes de Agamêmnon, e os troianos chegam aos navios.
- Pátroclo (cantos 16 e 17). Ele sai com a armadura de Aquiles e é morto por Heitor.
- A volta de Aquiles (cantos 18 a 22). Armadura nova feita por Hefesto, um rio que se volta contra ele e Heitor morto diante das muralhas.
- O desfecho (cantos 23 e 24). Jogos fúnebres para Pátroclo e, à noite, Príamo vai resgatar o corpo do filho.
Como termina
O velho rei se ajoelha na tenda de Aquiles e pede que ele se lembre do próprio pai:
Pense no seu próprio pai e tenha compaixão de mim, que sou ainda mais digno de pena, pois me armei de uma coragem que nenhum homem jamais teve antes de mim, e levei aos lábios a mão daquele que matou o meu filho.
Aquiles chora com ele, devolve o corpo e concede uma trégua para o luto. O último verso é sereno: “Assim, pois, celebraram o funeral de Heitor, domador de cavalos.” A cólera que abriu o poema termina em compaixão entre inimigos.
O que fica de fora
Não há pomo de ouro, nem calcanhar, nem cavalo de madeira, nem saque de Troia. Homero conhece essas histórias e passa perto de algumas: a disputa das deusas aparece uma vez no canto 24, a morte de Aquiles surge em várias profecias, e a queda da cidade, nas palavras de Heitor à mulher. Ele só não as conta. O pomo pertence aos Cantos Cíprios (O que significa ‘pomo da discórdia’?), a morte de Aquiles à Etiópida (Como Aquiles morreu?), e o cavalo à Odisseia e a Virgílio. O outro poema de Homero começa depois da guerra: Sobre o que é a Odisseia?
É só a história de Aquiles?
Não. Aquiles fica fora da batalha do fim do canto 1 até o canto 20, e o poema dedica o mesmo cuidado aos troianos. Heitor luta por uma cidade que espera perder, e a viagem noturna de Príamo dá peso ao final. Muitos leitores saem do livro lembrando dos defensores tanto quanto do herói. Talvez seja essa a lição discreta da Ilíada: o tema é a cólera de um homem, mas a compaixão do poeta alcança os dois lados da muralha.
Fontes
- Homero, Ilíada, cantos 1 a 24
- Heródoto, Histórias 2.53
- Proclo, resumos dos Cantos Cíprios e da Etiópida
- M. L. West, The Making of the Iliad (2011)