Mitos gregos · História

A Guerra de Troia aconteceu de verdade?

A resposta curta

Troia existiu; a guerra de Homero é que está em discussão. As ruínas ficam em Hisarlık, no noroeste da Turquia, com nove cidades empilhadas, e uma delas, Troia VIIa, foi destruída por um incêndio por volta de 1180 a.C. Cartas hititas talvez a chamem de Wilusa. Mas nenhum achado prova um cerco grego como o dos poemas.

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Onde fica Troia

Troia é a colina de Hisarlık, perto da cidade de Çanakkale, no noroeste da Turquia. Ela domina uma planície na entrada dos Dardanelos, o estreito apertado que leva do Egeu ao mar de Mármara e, dali, ao mar Negro. Uma cidade naquele ponto vigiava a passagem dos navios, e isso ajuda a entender por que valia a pena disputá-la. Séculos mais tarde, gregos viviam ali numa cidade chamada Ílion, e Alexandre, o Grande, parou no local em 334 a.C. para depositar uma coroa no túmulo atribuído a Aquiles antes de invadir a Pérsia. Os romanos mantiveram a cidade com o nome de Ílio.

Schliemann, o ouro e o estrago

Quem cavou primeiro, nos anos 1860, foi Frank Calvert, um inglês que morava na região e era dono de parte da colina. Heinrich Schliemann, um rico comerciante alemão, assumiu as escavações em 1870, com muito dinheiro e pouco cuidado: abriu uma trincheira enorme que cortou as camadas ao meio e destruiu boa parte delas. Em 1873, anunciou ter encontrado o “tesouro de Príamo”. O ouro era de Troia II, uns mil anos mais antigo do que qualquer guerra que Homero pudesse conhecer. Depois vieram escavações mais cuidadosas: Wilhelm Dörpfeld nos anos 1890, Carl Blegen nos anos 1930 e Manfred Korfmann a partir de 1988, cuja equipe localizou uma cidade baixa em volta da cidadela. Desde 1998, o sítio é Patrimônio Mundial da Unesco.

Nove Troias, duas candidatas

A colina guarda nove cidades principais, numeradas de Troia I a Troia IX, de baixo para cima, do início da Idade do Bronze à época romana. Duas camadas disputam o papel de Troia de Homero:

  • Troia VI, a das grandes muralhas inclinadas de calcário, que chegou ao fim por volta de 1300 a.C. Era a aposta de Dörpfeld.
  • Troia VIIa, erguida sobre as ruínas da anterior, que queimou por volta de 1180 a.C. Era a aposta de Blegen.

Curiosamente, o sábio grego Eratóstenes calculou a queda de Troia em 1184 a.C., bem perto da data que os arqueólogos dão à VIIa. Só que uma camada queimada não conta quem acendeu o fogo.

O que dizem os hititas

A principal pista vinda de fora está nos arquivos dos reis hititas, no centro da Anatólia. Cartas e tratados do século XIII a.C. falam de um reino a oeste chamado Wilusa, que muitos estudiosos identificam com Wilios, a forma antiga de Ílios, e de uma potência chamada Ahhiyawa, talvez os aqueus de Homero. Um tratado de cerca de 1280 a.C. cita um rei de Wilusa chamado Alaksandu, nome parecido com Alexandre, o outro nome de Páris. Uma carta posterior menciona uma briga antiga por Wilusa entre o rei hitita e o rei de Ahhiyawa. Nada disso descreve um cerco, mas põe gregos e uma cidade perto dos Dardanelos no mesmo jogo diplomático.

Os próprios gregos duvidavam

Tucídides, por volta de 400 a.C., aceitava que a guerra tinha acontecido, mas desconfiava que os poetas a tinham aumentado (1.10). Ruínas enganam, avisava ele: se Esparta fosse abandonada, quem visse as construções modestas jamais adivinharia o poder que ela teve. Heródoto ouviu de sacerdotes egípcios que Helena nem chegou a Troia, versão contada em Quem foi Helena de Troia? O cavalo de madeira também não deixou vestígio, e a origem dessa história é assunto de O cavalo de Troia existiu?

Muitos arqueólogos resumem assim: Troia foi uma cidade real e rica, disputada mais de uma vez, e a guerra de Homero é o que gerações de cantores fizeram dessas lembranças.

Fontes

  • Tucídides, História da Guerra do Peloponeso 1.10
  • Heródoto, Histórias 2.112–120
  • Arriano, Anábase de Alexandre 1.11–12
  • Trevor Bryce, The Trojans and Their Neighbours (2006)
  • Eric H. Cline, The Trojan War: A Very Short Introduction (2013)