A resposta curta
Sim. Por trás do mito houve um rei da Frígia, no centro da atual Turquia. Os anais do rei assírio Sargão II o chamam de Mita de Mushki em 709 a.C., e os historiadores o identificam com Midas. A capital era Górdio, onde o “Túmulo de Midas”, de cerca de 740 a.C., provavelmente guarda o pai dele.
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Um nome nos anais assírios
A primeira testemunha de Midas não é um poeta grego, e sim um escriba assírio. Sargão II, rei da Assíria de 722 a 705 a.C., mandava registrar as campanhas ano a ano. Os anais dele citam um soberano poderoso do oeste, Mita, da terra de Mushki, que durante anos apoiou os inimigos da Assíria na Anatólia. Em 709 a.C., contam os registros, Mita enfim mandou a Sargão um enviado com presentes. Os historiadores identificam esse Mita com o Midas da tradição grega, rei dos frígios.
A Frígia e Górdio
A Frígia ocupava os planaltos do centro da Anatólia. A capital, Górdio, fica às margens do rio Sakarya, a sudoeste de Ancara. A oeste ficava a Lídia, com a capital Sardes e o Pactolo, o rio em que o Midas de Ovídio se livra do toque de ouro.
Górdio também deu nome a uma expressão bem conhecida em português. Segundo a tradição grega, o pai de Midas se chamava Górdio, como a cidade, e lá ficava uma carroça ligada à família, presa por um nó que ninguém conseguia desatar. Em 333 a.C., Alexandre, o Grande, passou por lá e, segundo Arriano, resolveu o problema do nó górdio (Anábase 2.3). Até hoje, “cortar o nó górdio” é resolver de um golpe o que parecia sem saída.
O Túmulo de Midas
Ao lado de Górdio se ergue um morro artificial de terra com cerca de 53 metros de altura, conhecido há muito tempo como “Túmulo de Midas”. Em 1957, uma equipe chefiada por Rodney Young, do museu da Universidade da Pensilvânia, abriu um túnel até o centro e encontrou uma câmara funerária fechada, toda de madeira. Lá dentro havia um homem de uns sessenta anos, cerca de cem tigelas de bronze, móveis de madeira com marchetaria e os restos de um banquete fúnebre. Análises químicas dos resíduos, publicadas em 1999, indicam um ensopado de cordeiro com lentilha e uma bebida que misturava vinho, cerveja de cevada e hidromel.
Os anéis da madeira situam a câmara por volta de 740 a.C., décadas antes de o enviado de Mita chegar a Sargão. Então o morto provavelmente não é Midas, e sim o pai dele. E o túmulo do rei do toque de ouro não tinha ouro nenhum.
Midas na memória grega
Os gregos se lembravam dele como um rei de verdade, que olhava para o oeste. Heródoto, que escreveu no século V a.C., conta que Midas, filho de Górdio, foi o primeiro estrangeiro a mandar uma oferenda a Delfos: o trono real em que se sentava para julgar, ainda exposto lá na época do historiador (Histórias 1.14).
O ouro, porém, era dos vizinhos. O Pactolo carregava eletro, uma liga natural de ouro e prata, e a Lídia cunhou as primeiras moedas por volta de 600 a.C.; Heródoto diz que os lídios foram os primeiros a cunhar moedas de ouro e de prata (1.94). O último rei deles, Creso, virou sinônimo de fortuna: “rico como Creso”. O mito simplesmente entregou a riqueza do rio ao rei mais famoso da região.
Postas em ordem, as datas contam a história: o túmulo por volta de 740 a.C., Mita nos anais em 709 a.C., as primeiras moedas por volta de 600 a.C. e Ovídio contando o toque de ouro por volta de 8 d.C. São uns sete séculos entre o rei de verdade e o poema. Já as orelhas de burro são outra história, sem nenhum registro por trás.
Fontes
- Anais de Sargão II, ano 13 (709 a.C.)
- Heródoto, Histórias 1.14 e 1.94
- Arriano, Anábase de Alexandre 2.3
- Rodney S. Young, Three Great Early Tumuli (The Gordion Excavations Final Reports I, 1981)
- Patrick E. McGovern e outros, “A funerary feast fit for King Midas”, Nature 402 (1999)