Mitos gregos · Expressões

O que significa ‘toque de Midas’?

A resposta curta

Ter o “toque de Midas” é ter talento para ganhar dinheiro ou para transformar em sucesso tudo o que se faz. A expressão vem do mito de Midas contado por Ovídio: o deus Dioniso atende ao pedido do rei, que tudo o que tocar vire ouro. Mas o pão e o vinho também viram, e o presente se torna maldição.

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O pedido

Ovídio conta a história no livro 11 das Metamorfoses, escritas em Roma por volta de 8 d.C. Tudo começa com um velho perdido. Camponeses da Frígia encontram Sileno, o velho mestre de Dioniso, o deus do vinho (Ovídio o chama de Baco), cambaleando de idade e de bebida. Enfeitam-no com guirlandas e o levam ao rei. Midas o reconhece dos ritos do deus, passa dez dias e dez noites em festa com ele e depois o devolve ao deus, seu pupilo.

Agradecido, o deus deixa Midas escolher a recompensa que quiser. A resposta vem na hora: “Faça com que tudo o que eu tocar com o meu corpo se transforme em ouro amarelo.” Ovídio diz que o deus atendeu, lamentando que o rei tivesse escolhido justamente o que lhe faria mal.

No caminho de volta, Midas põe o dom à prova. Um galho arrancado de um carvalho vira ouro, depois uma pedra, um torrão de terra, umas espigas de trigo, uma maçã digna do jardim das Hespérides. Até a água em que ele lava as mãos escorre como uma chuva dourada.

O jantar

Então os criados põem a mesa. O pão endurece na mão dele, a carne vira lascas de metal entre os dentes, o vinho desce pela garganta como ouro derretido. Ovídio resume assim o rei naquele instante:

Atônito com esse estranho infortúnio, rico e, ainda assim, infeliz, ele quer fugir da riqueza e odeia o que acabou de pedir em prece. Nenhuma fartura de comida lhe alivia a fome; a garganta arde de sede, e, por sua própria culpa, ele é torturado pelo ouro odioso.

Ovídio, Metamorfoses 11.127–130

De braços erguidos para o céu, reluzentes de ouro, Midas admite o erro e implora ao deus: “salve-me desta maldição de bela aparência.”

Lavado no Pactolo

Dioniso cede. Que o rei vá ao rio que passa por Sardes, suba até a nascente e mergulhe ali a cabeça e o corpo. Midas obedece, e o toque sai dele e passa para a correnteza. Ovídio acrescenta que os campos à beira do rio continuam duros e amarelos com aquele ouro. É um mito de origem: explica por que o Pactolo, na Lídia, carregava areia dourada.

O ouro do rio existia de verdade, e o rei também, como mostra a página sobre se o rei Midas existiu de verdade.

De maldição a elogio

Hoje a expressão perdeu o jantar pelo caminho. Dizer que alguém tem o toque de Midas é dizer que tudo em que ele põe a mão vira ouro: o empresário que só acerta, o técnico que transforma qualquer elenco em campeão. É elogio. Em Ovídio, é o contrário: um desejo atendido ao pé da letra, um homem que tem tudo e não consegue comer nada.

Os antigos levavam o aviso a sério. Aristóteles, na Política (1257b), usa Midas para separar dinheiro de riqueza: alguém pode ter moedas de sobra e mesmo assim morrer de fome, como o rei da fábula, porque riqueza de verdade é aquilo de que se pode viver.

Duas confusões comuns. A filha que vira metal quando o pai a beija não está em Ovídio: quem a inventou foi o americano Nathaniel Hawthorne, numa versão para crianças chamada “The Golden Touch”, em que ela se chama Marygold. E Midas não ficou muito mais sábio: logo na cena seguinte, Ovídio lhe dá orelhas de burro.

Fontes

  • Ovídio, Metamorfoses 11.85–145
  • Aristóteles, Política 1.9, 1257b
  • Nathaniel Hawthorne, “The Golden Touch”, em A Wonder-Book for Girls and Boys