Mitos gregos · História

Por que Ovídio foi exilado?

A resposta curta

Ninguém sabe exatamente. Em 8 d.C., o imperador Augusto baniu Ovídio para Tômis, no mar Negro, hoje Constança, na Romênia. O próprio poeta cita dois motivos, carmen et error, “um poema e um erro”. O poema era A arte de amar, um manual espirituoso para amantes. O erro ele nunca explicou, e continua um mistério.

Revisado em

A ordem do imperador

Em 8 d.C., Ovídio tinha uns cinquenta anos, era o poeta mais festejado de Roma e dava os últimos retoques nas Metamorfoses. Então veio uma ordem do próprio Augusto, o primeiro imperador. Não houve julgamento no Senado, conta Ovídio, só um decreto pessoal do imperador. Ele teria de deixar Roma e ir para Tômis, um porto grego no limite do império, na costa oeste do mar Negro.

Ovídio faz questão do termo exato: relegatio, e não exílio completo. Quem era relegado mantinha os bens e a cidadania romana. Só não podia voltar.

Um poema e um erro

Na longa carta em versos a Augusto que ocupa o livro 2 dos Tristes, Ovídio aponta as duas acusações que o arruinaram: carmen et error, um poema e um erro (Tristes 2.207). Sobre a segunda, diz ele, precisa se calar.

O poema não tem mistério. A arte de amar, publicada uns dez anos antes, é um manual bem-humorado sobre como conquistar e manter um amante em Roma. Batia de frente com um imperador que tinha aprovado leis duras sobre casamento e adultério em 18 a.C. e que já havia banido a própria filha, Júlia, em 2 a.C., pelos escândalos dela. Mesmo assim, um livro de dez anos antes é um motivo estranho para uma pena tão repentina.

O erro é o verdadeiro enigma. Ovídio solta pistas e nunca explica. Pergunta por que viu o que viu e se compara a Actéon, o caçador destruído por ter visto a deusa Diana sem querer (Tristes 2.103–106). Talvez tenha testemunhado o que não devia. O palpite mais comum liga o caso à neta de Augusto, Júlia, a Jovem, banida no mesmo ano; outros falam de uma conspiração política. Dois mil anos de suposições não produziram prova nenhuma.

A vida nos confins do mundo

Ao partir, Ovídio jogou no fogo o próprio exemplar das Metamorfoses; os amigos tinham cópias, e o poema sobreviveu (Tristes 1.7). Tômis, hoje Constança, na Romênia, o deixou chocado. Ele escreveu que o vinho congelava e guardava a forma do jarro, e que cavaleiros atravessavam o Danúbio congelado (Tristes 3.10). Aprendeu a língua local, o gético, e chegou a escrever um poema nela (Cartas do Ponto 4.13).

Durante anos, mandou para Roma poema atrás de poema, os cinco livros dos Tristes e as Cartas do Ponto, pedindo perdão ou ao menos um lugar menos duro. Nada veio. Augusto morreu em 14 d.C., e o sucessor, Tibério, também não cedeu. Ovídio morreu em Tômis por volta de 17 d.C. Hoje uma estátua dele fica na praça principal da cidade.

O poema teve a última palavra

Ovídio já tinha respondido ao imperador no epílogo das Metamorfoses, e muitos leitores enxergam Augusto no deus irado destes versos:

E agora completei uma grande obra, que nem a ira de Júpiter, nem o fogo, nem o ferro, nem o tempo voraz poderão destruir.

Ovídio, Metamorfoses 15.871–872

Ele tinha razão. O poema que tentou queimar continua sendo lido. E, em dezembro de 2017, a câmara municipal de Roma aprovou a revogação do banimento, um perdão simbólico com dois mil anos de atraso.

Fontes

  • Ovídio, Tristes 1.7, 2.103–106, 2.131–138, 2.207–208 e 3.10
  • Ovídio, Cartas do Ponto (Epistulae ex Ponto) 4.13
  • Ovídio, Metamorfoses 15.871–879
  • Suetônio, Vida de Augusto 65 (o banimento das duas Júlias)