Mitos gregos · Fatos

Por que Aracne virou aranha?

A resposta curta

Porque desafiou Atena e mostrou os crimes dos deuses. Nas Metamorfoses de Ovídio, Aracne, uma tecelã da Lídia, nega que a deusa a tenha ensinado, se recusa a pedir perdão e enfrenta Atena no tear. A tapeçaria dela não tem defeito, mas mostra deuses enganando mortais. Atena a rasga em pedaços e transforma Aracne em aranha.

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Uma tecelã sem padrinhos

Ovídio abre o livro 6 das Metamorfoses com ela. Aracne não tem berço ilustre. O pai, Ídmon de Cólofon, tinge lã com púrpura da Foceia, a mãe já morreu, e ela mora numa cidadezinha da Lídia. A única fama que tem é o talento. As ninfas deixam os vinhedos do monte Tmolo e as águas do Pactolo, o rio onde Midas se livrou do toque de ouro, só para vê-la cardar, fiar e bordar.

Qualquer um percebia, diz Ovídio, que aquelas mãos tinham sido treinadas por Atena. Aracne nega, sem querer dividir o mérito, e vai além: “Que ela dispute comigo na arte.” Como escreve em latim, Ovídio chama a deusa pelo nome romano, Minerva, ou pelo título de Palas.

A última chance

Atena aparece primeiro como uma velha de cabelos grisalhos, apoiada num cajado. O conselho é brando: orgulhe-se do talento entre os mortais, mas peça perdão à deusa, “pois ela vai lhe conceder o perdão, se você pedir”. Aracne fecha a cara, larga o fio e manda a velha embora: “aconselhe a sua deusa a vir aqui em pessoa.” O disfarce cai. “Minerva veio até você!” As ninfas se curvam. Aracne fica vermelha, depois pálida, e não recua. Dois teares são montados lado a lado.

Duas tapeçarias

Atena tece os deuses como devem ser vistos. Os doze deuses, nos tronos, cercam Zeus na Acrópole e julgam a disputa dela com Poseidon pela cidade de Atenas, vencida pela oliveira da deusa. Nos quatro cantos, ela acrescenta pequenos avisos: mortais que desafiaram os deuses e viraram montanhas, um grou, uma cegonha e os degraus de um templo. A borda é uma moldura de folhas de oliveira.

Aracne tece os deuses no que eles têm de pior: Zeus disfarçado de touro, de cisne e de chuva de ouro, depois Poseidon, Apolo e Dioniso com disfarces próprios, cada um enganando uma mortal. O latim de Ovídio chama o tema de caelestia crimina, crimes celestes. A borda dela é de flores entrelaçadas com hera.

Nem Palas, nem mesmo a Inveja, poderia achar defeito naquela obra. A deusa de cabelos dourados se indignou com o êxito da moça e rasgou a tela bordada, com seus crimes celestes

Ovídio, Metamorfoses 6.129–131

Por isso a versão mais repetida, a de que Aracne perdeu um concurso de tecelagem, não é a de Ovídio. A obra dela era perfeita. Ela foi castigada por não se curvar e pelo que escolheu mostrar.

De moça a aranha

Atena a golpeia na cabeça com uma lançadeira de buxo, três ou quatro vezes. Aracne não suporta a humilhação e tenta se enforcar. A deusa a ergue e transforma o gesto em sentença: “Viva, sim, menina perversa, mas continue pendurada.” Borrifada com o suco das ervas de Hécate, Aracne perde o cabelo, a cabeça encolhe, os dedos viram patas finas, e do corpo sai um fio. Ela continua tecendo.

Em grego, arachnē quer dizer simplesmente aranha. Daí vêm os aracnídeos, grupo que reúne aranhas, escorpiões, carrapatos e ácaros, e a aracnofobia, o medo de aranhas. Velázquez escondeu a disputa ao fundo do quadro As Fiandeiras, pintado na década de 1650 e guardado no Museu do Prado, em Madri.

Há muito tempo os leitores notam que a tapeçaria de Aracne se parece muito com o poema de Ovídio, cheio de deuses disfarçados e mortais injustiçados. O autor também pagaria pela própria arte: em 8 d.C., um imperador que se dizia filho de um deus o mandou para o exílio.

Fontes

  • Ovídio, Metamorfoses 6.1–145
  • Diego Velázquez, As Fiandeiras (Museu do Prado, Madri)