Mitos gregos · Expressões

De onde vem a palavra ‘narcisismo’?

A resposta curta

Vem de Narciso, um rapaz belíssimo das Metamorfoses de Ovídio que se apaixona pelo próprio reflexo numa fonte, definha e vira flor. O médico Havelock Ellis usou o nome dele para o amor por si mesmo em 1898, e Sigmund Freud transformou o narcisismo em conceito da psicanálise com o ensaio “Introdução ao narcisismo”, de 1914.

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Uma profecia sem pé nem cabeça

A história está no livro 3 das Metamorfoses. Narciso é filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope. Quando ele ainda é bebê, a mãe pergunta ao adivinho cego Tirésias se o menino vai chegar à velhice. A resposta parece não dizer nada: “Se ele não reconhecer a si mesmo, poderá ter vida longa sob o sol.” Aos dezesseis anos, Narciso é tão bonito que rapazes e moças o disputam, e o orgulho, conta Ovídio, faz com que ele rejeite todos.

Eco, que só sabe responder

Uma das apaixonadas é Eco, ninfa das montanhas que não pode mais falar primeiro. Ela costumava prender Hera na conversa enquanto as ninfas perseguidas por Zeus fugiam, e a deusa, que Ovídio chama de Juno, a condenou a repetir só as últimas palavras que ouve: “Essa língua, tão solta às minhas custas, terá pouca serventia.”

Por isso, quando Narciso se perde dos companheiros no bosque e grita “Alguém aqui?”, tudo o que ela pode dizer é “Aqui!”. Ele chama “Venha cá!”, e ela devolve o chamado. Quando Eco sai do mato para abraçá-lo, ele foge. Ela se esconde nas cavernas e definha até sobrar só a voz nas colinas; os ossos, diz Ovídio, viram pedra. Como os juncos que espalharam o segredo de Midas, ela só devolve o que ouve. Em grego, o nome dela quer dizer justamente o som que volta, e é dela que vem a nossa palavra eco.

O rosto na fonte

Um dos rejeitados pede aos deuses que Narciso também ame sem ser correspondido, e Nêmesis atende à prece. Cansado da caça, ele se debruça sobre uma fonte intocada para beber e se apaixona pelo rosto que vê. Ele sabia que era o próprio? No começo, não. Ovídio é exato: “Ele não sabe o que ali contempla.” Tenta beijar aquele rosto, tenta segurá-lo, e a imagem se desfaz em ondulações.

Descobrir a verdade só piora as coisas. “Sou eu em você”, ele diz por fim, e logo vem a frase que o resume: “a abundância me faz pobre.” Narciso não consegue sair dali. Derrete como cera perto do fogo, Eco devolve o último “Adeus!”, e no lugar do corpo as ninfas encontram apenas uma flor, “o branco em volta do ouro”. Mesmo entre os mortos, acrescenta Ovídio, ele continua se olhando nas águas do Estige.

Do mito ao consultório

A palavra em si nasceu entre médicos, não em Ovídio. Em 1898, o inglês Havelock Ellis comparou ao mito uma forma de amor voltado para si mesmo. No ano seguinte, o psiquiatra alemão Paul Näcke transformou a comparação num termo, Narcismus. Em 1914, Freud publicou “Introdução ao narcisismo”, ensaio que pôs a ideia no centro da psicanálise e tratou certa dose de amor-próprio como etapa normal do desenvolvimento, e não só como doença. Desde 1980, o manual de diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria inclui o transtorno de personalidade narcisista.

No dia a dia, “narcisista” virou rótulo para qualquer pessoa vaidosa ou egocêntrica. O Narciso de Ovídio só se encaixa pela metade. Ele é orgulhoso e frio com os outros, mas nunca se gaba, e, na fonte, não se contempla por vaidade: primeiro é enganado, depois fica preso.

Já a flor aparece na poesia grega antes da história dele. No Hino Homérico a Deméter, a Terra faz brotar um narciso para atrair Perséfone, e Plínio, o Velho, achava que o nome da planta vinha do grego narkē, torpor, a mesma raiz de “narcótico”.

Fontes

  • Ovídio, Metamorfoses 3.339–510
  • Hino Homérico a Deméter 1–18
  • Havelock Ellis, “Auto-Erotism: A Psychological Study” (1898)
  • Sigmund Freud, “Introdução ao narcisismo” (1914)
  • Plínio, o Velho, História Natural, livro 21