A resposta curta
Porque queria ouvir as sereias e continuar vivo. Circe avisou que o canto delas matava todo marinheiro que o escutasse, mas que ele poderia ouvi-lo em segurança se os companheiros, de ouvidos tapados com cera, o amarrassem de pé ao mastro e apertassem as cordas sempre que ele implorasse para ser solto. Ele ouviu, e sobreviveu.
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As instruções de Circe
A ideia não é dele, é de Circe. Na última noite na ilha da feiticeira, ela conta o que vem pela frente. Primeiro, as sereias: quem ouve o canto delas nunca mais vê a mulher e os filhos, porque elas ficam num prado verde, entre montes de ossos, e com o canto levam os homens à morte. A receita dela é simples: cera nos ouvidos da tripulação. Se ele fizer questão de ouvir, que o amarrem de pé ao mastro, com mais uma ordem:
Se você implorar e pedir aos homens que o soltem, eles devem amarrá-lo com mais força ainda.
Repare na escolha que Circe deixa em aberto. Tapar os próprios ouvidos seria totalmente seguro. Ouvir é opcional, e Odisseu, que sempre quer saber mais, escolhe ouvir. De volta ao navio, ele conta aos companheiros sobre as sereias e repete a ordem: se ele implorar, que apertem os nós.
Cera e corda
Perto da ilha das sereias, o vento morre de repente. Os homens recolhem a vela e pegam os remos. Odisseu pega um grande disco de cera, pica a cera com a espada, amolece os pedaços nas mãos, com a ajuda do sol, e tapa com eles os ouvidos de cada remador. Depois eles o amarram pelas mãos e pelos pés, de pé numa travessa do mastro, com as pontas da corda presas ao próprio mastro. Ninguém mais a bordo vai escutar nada.
O canto: saber, não amor
As sereias avistam o navio e começam. Chamam Odisseu pelo nome, como a glória dos aqueus, e se gabam de que nenhum marinheiro jamais passou por ali sem parar para ouvir a doçura do canto delas. Então vem a oferta:
quem nos ouve segue o seu caminho não só encantado, mas mais sábio, pois conhecemos todos os males que os deuses impuseram aos argivos e aos troianos diante de Troia, e podemos contar a você tudo o que vai acontecer no mundo inteiro.
Não há uma palavra sobre amor. O prêmio é a história completa da guerra em que ele lutou, e de quebra o futuro. Calipso lhe ofereceria a imortalidade; as sereias oferecem a esse homem de curiosidade sem fim algo que ele deseja ainda mais: saber. E funciona. Ele franze a testa para os companheiros, pedindo que o soltem. Em vez disso, conta Homero, Euríloco e Perimedes se levantam e o prendem com laços ainda mais fortes, e a tripulação segue remando até as vozes sumirem. Só então os homens tiram a cera dos ouvidos e o desamarram.
E as sereias?
Como eram? Homero não diz; os pintores gregos lhes deram corpo de pássaro, e o rabo de peixe só chegou bem depois. E o que aconteceu com elas? Homero também se cala. Apolodoro, séculos mais tarde, conta que estavam fadadas a morrer se algum navio passasse por elas, “e assim morreram”.
Cair no canto da sereia
A cena deixou uma expressão bem viva no português do Brasil. “Canto da sereia” é toda promessa doce que leva à ruína, e “não cair no canto da sereia” é conselho que se ouve em casa, no trabalho e no noticiário de economia. O resto da cena também ganhou nome: médicos e economistas falam em contrato de Ulisses quando alguém se amarra de antemão contra uma fraqueza que sabe que vai aparecer. Odisseu é o modelo. Ele não confia em si mesmo para resistir; por isso, dá um jeito de não poder ceder. Logo depois do canto vem um perigo que nenhuma corda resolve: Cila e Caríbdis.
Fontes
- Homero, Odisseia 12.36–54 e 12.142–200
- Apolodoro, Epítome 7.18–19