Mitos gregos · Fatos

Por que Circe transformou os homens de Odisseu em porcos?

A resposta curta

Homero dá um só motivo: Circe misturou ao vinho uma poção para que eles esquecessem a pátria, e depois os transformou em porcos com um toque da varinha. Parece ser o que ela fazia com estrangeiros, já que lobos e leões enfeitiçados rondavam a casa dela. Os homens viraram porcos, mas continuaram com a mente humana.

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A ilha de Circe

Com o único navio que sobrou depois dos lestrigões, Odisseu chega a Eeia, a ilha de Circe, deusa, filha do Sol e irmã do rei Eetes (Odisseia 10.135–139). O sorteio manda Euríloco na frente com vinte e dois homens. No meio do bosque, eles encontram uma casa de pedra polida e, em volta, lobos e leões que abanam o rabo como cães. Homero diz que ela os amansou com poções (10.212–213), e deixa no ar quem eles teriam sido antes. Lá dentro, uma mulher canta ao tear e os convida a entrar. Só Euríloco, desconfiado, fica do lado de fora.

A taça e a varinha

Ela os faz sentar e serve queijo, farinha de cevada e mel misturados ao vinho de Pramno, com uma poção no meio. Homero diz para que serve a droga num único verso: para que esquecessem de vez a terra natal (10.236). Depois, um toque da varinha, e ela os tranca nos chiqueiros.

Eram como porcos, da cabeça às cerdas, e grunhiam como porcos; mas continuavam com o mesmo juízo de antes, e se lembravam de tudo.

Homero, Odisseia 10.239–240

Aí está o horror da cena. Os homens choram dentro de corpos de porco, enquanto ela atira bolotas para eles comerem. Por que Circe faz isso? O poema não diz mais nada além do objetivo da poção, e esse objetivo diz muito. Esquecer a volta é o que o lótus fez com os batedores de Odisseu (quem eram os lotófagos). Nesta viagem, o perigo mais fundo é deixar de querer Ítaca.

Hermes e a erva móli

Odisseu vai sozinho. No caminho, o deus Hermes, disfarçado de rapaz, o encontra e arranca uma planta do chão para ele.

A raiz era negra, e a flor, branca como o leite; os deuses a chamam de móli, e os homens mortais não conseguem arrancá-la, mas os deuses podem fazer tudo o que quiserem.

Homero, Odisseia 10.304–306

Com a móli, diz Hermes, a poção vai falhar. Quando Circe o tocar com a varinha, ele deve puxar a espada como quem vai matá-la e fazê-la jurar, pelo grande juramento dos deuses, que não vai tramar mais nenhum mal contra ele (10.277–301). Que planta seria a móli é um enigma até hoje. Homero só diz que tem raiz negra, flor branca como leite e um nome dado pelos deuses.

O juramento e o ano

Tudo acontece como Hermes disse. A taça não faz efeito, a espada sai da bainha, e Circe cai de joelhos: você só pode ser Odisseu, que Hermes sempre disse que viria. Ela o chama de polytropos, o homem de muitas voltas, a mesma palavra do primeiro verso do poema (10.330). Circe jura. Odisseu se recusa a comer enquanto os homens não forem libertados, e ela passa neles outra poção. Eles saem mais jovens, mais altos e mais bonitos do que antes (10.393–396).

Então o perigo vira conforto. Eles passam um ano inteiro em banquetes em Eeia, até que a própria tripulação chama o capitão num canto: “Senhor, já está na hora de começar a pensar em voltar para casa” (10.467–474).

Por que ela o manda aos mortos

Circe deixa que partam, mas antes eles precisam consultar outro guia. Só um morto pode ensinar o caminho: Tirésias, o profeta cego de Tebas, a quem Perséfone deixou o juízo inteiro mesmo depois da morte, enquanto os outros mortos são sombras que vagam (10.490–495). Por isso o caminho de casa passa pela terra dos mortos. Quando Odisseu volta para enterrar Elpenor, ela ainda o avisa sobre as sereias e sobre Cila.

A Circe de Homero primeiro é perigosa, depois generosa, e os artistas não param de voltar a ela. O pintor John William Waterhouse a retratou oferecendo a taça (1891), e o romance Circe (2018), de Madeline Miller, conta a história pelo lado dela.

Fontes

  • Homero, Odisseia 10.133–574
  • John William Waterhouse, Circe Offering the Cup to Ulysses (1891)