A resposta curta
Com vinho, um nome falso e paciência. Preso na caverna do ciclope Polifemo, Odisseu embebedou o gigante e disse que se chamava Ninguém (em grego, Outis). Depois que os gregos o cegaram durante o sono, os vizinhos ouviram “Ninguém está me matando” e foram embora. Ao amanhecer, os homens fugiram presos debaixo dos carneiros.
Revisado em
Um hóspede na caverna errada
Quem conta esta história é o próprio Odisseu, no canto 9 da Odisseia. Com doze dos melhores homens, ele encontra uma caverna acima do mar, com queijos empilhados e currais lotados de cordeiros e cabritos. Os homens querem pegar alguns queijos e sumir dali. Odisseu quer conhecer o dono e ver que presente ele dá aos visitantes (Odisseia 9.224–229).
Ele conta com a xenia, a lei grega da hospitalidade: o anfitrião alimenta o estrangeiro e dá a ele um presente, e Zeus protege os viajantes. O dono, Polifemo, responde do jeito dele.
Nós, ciclopes, não ligamos para Zeus nem para nenhum dos seus deuses bem-aventurados, porque somos muito mais fortes do que eles.
Em seguida o gigante agarra dois homens e os devora.
A pedra que ninguém movia
Odisseu poderia apunhalar o gigante enquanto ele dorme, mas então todos morreriam lá dentro: nem vinte e duas carroças de quatro rodas arrastariam a rocha que fecha a entrada (9.240–243). O gigante precisa continuar vivo, e precisa abrir a porta com as próprias mãos. Então Odisseu espera. Do porrete de oliveira verde do próprio ciclope, ele corta um pedaço de quase dois metros, afia a ponta, que endurece no fogo, e esconde a estaca no esterco (9.319–335).
Vinho e um nome
A segunda arma é o vinho de Maron, sacerdote de Apolo em Ísmaro, tão forte que era bebido com vinte partes de água (9.196–211). Polifemo esvazia três tigelas, pergunta o nome do hóspede e promete um presente em troca.
Ciclope, você pergunta o meu nome, e eu vou dizê-lo; dê-me então o presente que prometeu. Meu nome é Ninguém: é assim que meu pai, minha mãe e os meus amigos sempre me chamaram.
O presente do gigante: “Vou comer todos os companheiros de Ninguém antes do próprio Ninguém, e deixar Ninguém para o fim.” E cai no sono, bêbado.
Ninguém, um trocadilho
Enquanto ele dorme, cinco homens esquentam a estaca nas brasas e o cegam com ela. Os gritos trazem os outros ciclopes até a caverna: alguém está machucando você, à traição ou à força? Polifemo berra: “Ninguém está me matando à traição; ninguém está me matando à força.” Se ninguém o ataca, concluem os vizinhos, ele deve estar doente. E voltam para a cama.
Em português a piada funciona sozinha, porque “ninguém” é ao mesmo tempo o nome falso e a negação. O grego tem uma camada a mais. Outis quer dizer ninguém. Na resposta dos vizinhos, a gramática troca a palavra por me tis, que soa igualzinho a metis, astúcia, justamente a qualidade que fez a fama de Odisseu. Ele conta que riu por dentro, porque o nome falso e a astúcia dele tinham enganado todo mundo (9.413–414).
Debaixo dos carneiros
Agora o gigante cego se senta na porta, com as mãos estendidas, para agarrar quem tentar sair. Odisseu amarra os carneiros, grandes e lanudos, de três em três com varas de vime, prende um homem debaixo do animal do meio e se pendura sob o melhor carneiro do rebanho, de rosto para cima, agarrado à lã. Ao amanhecer, Polifemo apalpa o lombo de cada animal que sai para o pasto e nunca pensa em passar a mão por baixo.
O grande carneiro sai por último, e o gigante o segura: “Meu bom carneiro, o que faz você ser o último a sair da minha caverna esta manhã?” Acha que o bicho sofre pelo olho do dono, e o deixa passar.
Do lado de fora, os homens tocam o rebanho até o navio. O grito que veio depois, o nome verdadeiro berrado do convés, é a origem da raiva de Poseidon. Quem eram esses gigantes, e por que os ciclopes de Homero não são os de Hesíodo, é o assunto da página sobre o que é um ciclope.
Fontes
- Homero, Odisseia 9.105–470