Mitos gregos · Expressões

De onde vem a palavra ‘mentor’?

A resposta curta

Vem de Mentor, amigo de Odisseu na Odisseia, cuja aparência a deusa Atena toma emprestada para guiar Telêmaco, o filho do herói. Mas o substantivo comum nasceu de um romance francês, As aventuras de Telêmaco, de Fénelon, publicado em 1699, em que o sábio Mentor ensina o jovem príncipe a governar. Os leitores transformaram o nome em palavra.

Revisado em

Mentor em Homero

Na Odisseia, Mentor é um velho amigo de Odisseu, que ficou cuidando da casa quando o rei partiu para Troia. Ele fala uma única vez com a própria voz, no canto 2, para dar uma bronca no povo de Ítaca, que assiste de braços cruzados enquanto os pretendentes devoram a herança de Odisseu e a mãe de Telêmaco os enrola com a teia. Quase todo o resto que ‘Mentor’ faz no poema é obra de uma deusa com o rosto dele. Atena toma a aparência e a voz do amigo para prometer um navio a Telêmaco, viaja com ele até Pilos e o orienta quando o rapaz fica tímido diante do velho rei Nestor:

Algumas coisas, Telêmaco, o seu próprio instinto vai lhe sugerir, e os céus vão lhe soprar o resto; pois tenho certeza de que os deuses estão com você desde o dia em que você nasceu.

Homero, Odisseia 3.26–28

É o método de todo bom mentor numa frase: confie em você, e a ajuda vem. Na hora de partir, a deusa sai voando em forma de águia. Em Ítaca, o homem que emprestou o navio fica confuso: viu Mentor embarcar como capitão, ou um deus idêntico a ele, e depois viu o verdadeiro Mentor andando pela cidade. Atena volta a usar esse rosto na luta no salão e nos últimos versos do poema. O primeiro disfarce dela, no canto 1, é outro homem, Mentes, rei dos táfios; é fácil confundir os dois nomes.

Do nome de Homero à palavra de Fénelon

Por mais de dois mil anos, Mentor foi um nome secundário. A palavra veio da França. François Fénelon, arcebispo de Cambrai, era preceptor do duque de Borgonha, neto de Luís XIV, e escreveu para o aluno uma epopeia em prosa sobre as viagens de Telêmaco em busca do pai. Não pretendia publicá-la; anos depois, disse que o texto lhe escapou pela desonestidade de um copista. As aventuras de Telêmaco saíram em 1699. Luís XIV leu as lições sobre o bom governo como crítica ao próprio reinado, e Fénelon nunca mais recuperou o lugar na corte. Os leitores da Europa inteira fizeram do livro um sucesso mesmo assim.

O romance começa no ponto em que a Odisseia deixou uma deusa sofrendo: “Calypso ne pouvait se consoler du départ d’Ulysse”, Calipso não conseguia se consolar da partida de Ulisses. Telêmaco naufraga na ilha dela, e em todas as aventuras quem o guia é Mentor, que lhe ensina a governar com justiça, a desconfiar dos bajuladores e a amar o povo. Só no fim Mentor se revela como Minerva, o nome romano de Atena, e se despede: “Fils d’Ulysse, écoutez-moi pour la dernière fois”, filho de Ulisses, me escute pela última vez.

Como o nome virou palavra

O Mentor de Fénelon ficou tão famoso que o nome virou descrição. Menos de um século depois do livro, mentor já queria dizer qualquer guia sábio e experiente, em francês e em inglês, e o português herdou o sentido. Resumindo: o nome é de Homero; a palavra, de Fénelon. No Brasil, ela ganhou ainda um uso que o arcebispo não imaginaria: no noticiário, o mentor do crime é quem planejou tudo, o cérebro da operação.

Mentor é palavra grega?

O nome é grego e pode ter significado próprio. Muitos linguistas o ligam à antiga raiz men-, ‘pensar’, a mesma de mente, de modo que Mentor seria algo como ‘conselheiro’. O tradutor inglês Samuel Butler desconfiou de outra coisa: o verso que põe Mentor de pé no canto 2 repete, quase palavra por palavra, um verso que apresenta Nestor na Ilíada, e Butler se perguntou se o nome não teria sido fabricado a partir do de Nestor. De qualquer jeito, o verdadeiro professor da Odisseia é uma deusa, e o que ela ensina a Telêmaco é a não precisar mais de professor. No fim do poema, é ela, com o rosto de Mentor, quem sela a paz.

Fontes

  • Homero, Odisseia 1.105, 2.224–295, 3.12–30, 3.371–372, 4.649–656 e 24.502–548
  • Samuel Butler, nota a Odisseia 2.224 na tradução inglesa (1900)
  • François Fénelon, Les Aventures de Télémaque (1699), primeiro e último livros