A resposta curta
Para ganhar tempo sem dizer não. Pressionada por mais de cem pretendentes, Penélope prometeu escolher um deles quando terminasse uma mortalha para Laertes, o velho pai do marido. Tecia de dia e desfazia os pontos à noite, à luz de tochas. Enganou os pretendentes por três anos, até que uma criada contou o segredo no quarto ano.
Revisado em
Uma promessa com pegadinha
Odisseu sumiu há anos, e os jovens nobres de Ítaca e das ilhas vizinhas se instalaram no palácio dele: comem os rebanhos, bebem o vinho e pressionam Penélope a escolher um novo marido. Ela não tem exército, e o filho mal saiu da adolescência. Recusar de uma vez não adiantaria; eles só comeriam mais depressa. Ela aceita, mas com uma condição. Antes do casamento, precisa terminar uma mortalha para Laertes, o sogro, para que o velho não seja enterrado sem ela quando chegar a hora, e as mulheres da ilha não tenham do que falar. É um pedido piedoso, e nenhum pretendente teria a cara de pau de recusar.
Nas palavras dela
Homero conta o truque três vezes, de três pontos de vista. Aqui é a própria Penélope quem conta, junto ao fogo, a um mendigo esfarrapado que ela ainda não sabe que é o marido:
Eu passava o dia inteiro trabalhando na minha grande teia, mas à noite desfazia os pontos à luz de tochas. Assim eu os enganei por três anos sem que eles descobrissem
Os outros dois narradores são inimigos dela. No canto 2, Antínoo, o líder dos pretendentes, reclama do truque diante da assembleia da ilha. No canto 24, a sombra de um pretendente morto repete a história no mundo dos mortos e acrescenta um detalhe: depois de lavado, o tecido pronto brilhava como o sol ou a lua. O tecido tinha sido pensado para ficar pronto só no dia em que Penélope escolhesse.
Traída no quarto ano
Três anos é muito tempo para guardar segredo numa casa cheia de criados. No quarto ano, segundo Antínoo, uma das criadas que sabiam de tudo contou aos pretendentes, e eles pegaram Penélope desfazendo o trabalho; ela mesma culpa as criadas, no plural. Obrigada a terminar a mortalha, perdeu a melhor desculpa que tinha. A queixa de Antínoo acaba virando elogio, vindo de quem a odeia: “Nunca ouvimos falar de uma mulher assim.” As famosas heroínas de antigamente, resmunga ele, não chegavam aos pés dela.
O tear como arma
Tecer era o que se esperava de uma rainha grega, e por isso o truque funcionou: ninguém vigia uma mulher ao tear. Penélope transformou o trabalho mais comum da casa na única arma que tinha, e o adjetivo que Homero costuma usar para ela, periphron, ponderada, prudente, cai como uma luva. Há um eco bonito no grego: histos, a palavra para o tear, também quer dizer mastro, aquele a que o marido se amarrou para ouvir as sereias. Quando a teia acabou, ela inventou outro jeito de ganhar tempo: a prova do arco.
A teia de Penélope
O truque virou expressão. Em português, “teia de Penélope” é trabalho que nunca acaba, ou que se desfaz assim que parece pronto: a obra que começa e para, a reforma que não termina nunca. Os franceses dizem la toile de Pénélope no mesmo sentido. A cena também encantou os pintores; o inglês Joseph Wright of Derby mostrou Penélope desfazendo a teia à luz de uma lamparina num quadro de 1783–84, hoje no Museu Getty, em Los Angeles.
Fontes
- Homero, Odisseia 2.85–128, 19.137–158 e 24.120–150
- Joseph Wright of Derby, quadro de Penélope desfazendo a teia à luz de lamparina (1783–84), Museu J. Paul Getty, Los Angeles