A resposta curta
Não. Em Trabalhos e dias, de Hesíodo, escrito por volta de 700 a.C., Pandora abre um pithos, um grande jarro para grãos ou azeite. A caixa costuma ser atribuída ao erudito holandês Erasmo, que recontou a história em 1508 e trocou o jarro por uma pyxis, uma caixinha. Abrir a caixa de Pandora é soltar males que não voltam.
Revisado em
Um jarro, em Hesíodo
O jarro aparece pela primeira vez em Hesíodo, poeta grego de cerca de 700 a.C., em Trabalhos e dias, um poema sobre a vida no campo. Furioso com o roubo do fogo, Zeus manda os deuses fabricarem uma mulher, e cada um lhe dá um dom; daí o nome, Pandora, “todos os dons”. Hermes a entrega a Epimeteu, o irmão de Prometeu, que tinha sido avisado para nunca aceitar presente de Zeus e esqueceu. Então vem a cena famosa:
Mas a mulher tirou com as mãos a grande tampa do jarro e espalhou todos eles, e o seu pensamento trouxe dor e desgraça aos homens. Só a Esperança ficou ali, numa morada inquebrável, por dentro, sob a borda do grande jarro, e não voou porta afora
A palavra de Hesíodo é pithos: um jarrão de barro, pesado, para grãos, azeite ou vinho, às vezes da altura de um homem e meio enterrado no chão. Fileiras deles ainda estão de pé nos depósitos do palácio de Cnossos, em Creta. Contavam que o filósofo Diógenes morava num desses (Diógenes Laércio 6.23).
De onde veio a caixa
A caixa costuma ser atribuída a Erasmo de Roterdã. Nos Adagia, um livro de provérbios latinos, ele recontou a história em 1508 para explicar o ditado Malo accepto stultus sapit, algo como: depois do estrago, até o tolo aprende. Erasmo chamou o recipiente de pyxis, uma caixinha com tampa, e na versão dele quem levanta a tampa é Epimeteu. O helenista M. L. West sugeriu que Erasmo misturou Pandora com a caixinha que Psiquê carrega em O asno de ouro, de Apuleio. Os pintores seguiram o texto do Renascimento, e não o grego, e a caixa ficou.
Quem abriu e o que saiu
Em Hesíodo, quem abre o jarro é a própria Pandora. O poeta não diz de onde veio o jarro nem faz a lista do que havia dentro. Só mostra o antes e o depois. Antes, os homens viviam longe dos males, do trabalho pesado e das doenças. Depois, “a terra está cheia de males, e o mar também”, e as doenças rondam dia e noite em silêncio, porque Zeus lhes tirou a voz (Trabalhos e dias 90–104).
Na Teogonia, o mesmo Hesíodo conta uma versão curta, em que a primeira mulher não tem nome nem jarro. Já uma fábula de Bábrio vira a história do avesso: o jarro guarda todas as coisas boas, um homem tolo o abre, as bênçãos voltam voando para os deuses e só a esperança fica (Bábrio 58).
Por que a Esperança ficou
Hesíodo acrescenta que a tampa desceu a tempo, “pela vontade de Zeus, o portador da égide” (Trabalhos e dias 98–99). O que isso significa ainda se discute. Para uns, a Esperança é o consolo que sobrou aos homens. Para outros, é um bem trancado longe de nós, ou mais um mal guardado para depois. Uma terceira leitura parte da palavra grega elpis, que quer dizer expectativa, boa ou ruim. O Prometeu de Ésquilo conta que fez os mortais pararem de prever a própria morte e “fez morar no peito deles esperanças cegas” (Prometeu acorrentado 250). E o próprio Hesíodo, mais adiante no mesmo poema, desconfia da esperança vazia do preguiçoso (Trabalhos e dias 498–501).
Hesíodo também não esconde em quem põe a culpa: na primeira mulher e nas mulheres depois dela. A opinião é dele. Muitos leitores de hoje invertem a pergunta: Pandora foi a armadilha ou a primeira a cair nela? E quem conhece o Gênesis costuma pensar em Eva.
O que a expressão quer dizer hoje
Abrir a caixa de Pandora é mexer em algo que solta uma revoada de problemas impossíveis de recolher. A expressão guarda a caixa de Erasmo, mas a imagem por trás é a de Hesíodo: um jarro grande, uma tampa erguida uma única vez e uma coisa que ficou lá dentro. Por que Zeus mandou Pandora é a outra metade da história: o castigo de Prometeu.
Fontes
- Hesíodo, Trabalhos e dias 42–105 e 498–501
- Hesíodo, Teogonia 570–612
- Ésquilo, Prometeu acorrentado 248–252
- Erasmo, Adagia 1.1.31 (Veneza, 1508)
- Bábrio, Fábulas 58
- Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres 6.23
- M. L. West, Hesiod: Works and Days (Oxford, 1978)