História do Brasil · Mitos

Brasília tem formato de avião?

A resposta curta

Parece, mas não foi desenhada assim. Lúcio Costa partiu de dois eixos em ângulo reto, “o próprio sinal da cruz”, e depois curvou um deles para acompanhar o terreno e o caminho das águas. Visto do alto, o desenho lembra um avião, e o apelido pegou: Asa Sul, Asa Norte. Costa preferia outra imagem, a de uma borboleta.

Revisado em

O avião que todo mundo vê

Olhe Brasília num mapa. Um traço reto e comprido corta um arco largo, quase no meio. Parece um avião: a fuselagem, as duas asas, o bico apontado para o lago. O povo enxergou isso cedo, e o apelido grudou nos próprios bairros: Asa Sul e Asa Norte. De tanto repetir, muita gente passou a acreditar que a capital foi projetada no formato de avião. Não foi.

Uma cruz no papel

O ponto de partida está no relatório que Lúcio Costa entregou ao concurso do Plano Piloto, em março de 1957. A cidade inteira cabe num gesto: dois eixos que se cruzam em ângulo reto, “o próprio sinal da cruz”, escreveu ele. É o gesto de quem toma posse de um lugar. Só depois Costa curvou um dos eixos, para acompanhar o terreno e o caminho das águas. Aquela curva, nascida do relevo e não de um desenho de avião, é o que hoje todo mundo chama de asas.

Governo na reta, casas na curva

Siga o traço. No eixo reto, o Eixo Monumental, fica o governo: os ministérios em fila e, na ponta, a Praça dos Três Poderes, com o Congresso, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. No eixo curvo moram as pessoas, nas superquadras, com prédios de seis andares sobre pilotis, as colunas que deixam o térreo livre para quem passa. No cruzamento dos dois eixos fica a rodoviária. Quase não há esquinas.

Na “fuselagem”, portanto, fica o poder; nas “asas”, as casas. É por isso também que endereço em Brasília parece coordenada de mapa: Asa Sul ou Asa Norte, número da quadra, letra do bloco. Quem mora lá se orienta pela cruz, mesmo chamando a cidade de avião.

A borboleta de Lúcio Costa

O apelido veio depois, do povo, e ficou. Quando perguntavam a Costa, ele preferia outra imagem: uma borboleta. Avião ou borboleta, as duas descrevem o desenho pronto. O começo foi a cruz.

O desenho, aliás, veio antes da paisagem que hoje o emoldura. O lago para onde o “bico” aponta, o Paranoá, nem existia quando Costa riscou a cidade, em 1957. Só foi represado em 1959, com os prédios já subindo.

E a cruz voltou na inauguração. Na missa da meia-noite de 21 de abril de 1960, a cidade que nasceu de uma cruz ganhou outra no altar, de ferro, trazida da Sé de Braga, em Portugal. Em 1987, a Unesco pôs Brasília na lista do Patrimônio Mundial. Quem desenhou o quê, Costa a cidade e Oscar Niemeyer os prédios, está em Quem projetou Brasília?. E por que o país queria uma capital no planalto, em Por que a capital do Brasil mudou para Brasília?.

Fontes

  • Lúcio Costa, Relatório do Plano Piloto de Brasília (1957)
  • Unesco, Lista do Patrimônio Mundial, Brasília (inscrição de 1987)