A resposta curta
Por um erro de conta. Em 525, o monge Dionísio, o Exíguo, começou a contar os anos pelo nascimento de Jesus e errou por alguns anos. Mateus e Lucas põem o nascimento no reinado de Herodes, que morreu em 4 a.C. Por isso os historiadores apontam 6 a 4 a.C., antes de Cristo pela própria conta de Dionísio.
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O monge que inventou a contagem
Os anos que quase o mundo inteiro usa foram fixados em Roma, em 525, por um monge chamado Dionísio, o Exíguo. Ele vinha da Cítia, perto do mar Negro, traduzia documentos da Igreja do grego para o latim e era conhecido como Exiguus, “o Pequeno”, apelido que costuma ser lido como sinal de humildade. Naquele ano, ele preparou novas tabelas para calcular a data da Páscoa. As tabelas que herdou, de Alexandria, contavam os anos a partir da subida ao trono do imperador Diocleciano, em 284, o imperador da última grande perseguição. Dionísio não quis manter viva a memória de um perseguidor no calendário da Igreja. Passou a contar “desde a encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo”, e a tabela dele começava no ano 532. A Igreja copta, no Egito, conta até hoje a partir de Diocleciano, a chamada Era dos Mártires.
Onde a conta errou
Dionísio nunca explicou como chegou ao ano do nascimento, e os estudiosos ainda discutem a aritmética dele. Mas os Evangelhos trazem uma pista que não bate com a conta. Mateus e Lucas situam o nascimento no reinado de Herodes, o Grande (Lucas 1:5).
Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, eis que magos do oriente chegaram a Jerusalém,
Herodes ainda viveu algum tempo depois do nascimento. Mateus conta que ele mandou matar os meninos de Belém “de dois anos para baixo” (Mateus 2:16) e que morreu quando a família ainda estava no Egito.
Mas, tendo Herodes morrido, eis que um anjo do Senhor apareceu em um sonho a José, no Egito,
O historiador judeu Flávio Josefo põe a morte de Herodes depois de um eclipse da lua e antes de uma Páscoa, o que a maioria dos historiadores situa entre março e abril de 4 a.C.; como Herodes morreu traz os detalhes. Um nascimento um ou dois anos antes dá a estimativa mais comum: por volta de 6 a 4 a.C.
Como a conta pegou
No começo, os anos de Dionísio ficaram quase só nas tabelas da Páscoa. Quem os popularizou foi o monge inglês Beda. A História Eclesiástica do Povo Inglês, terminada em 731, data os acontecimentos pelo ano do Senhor do começo ao fim e foi copiada pela Europa inteira. Beda chegou a contar para trás: Júlio César, escreveu ele, chegou à Britânia no sexagésimo ano antes da encarnação do Senhor. César desembarcou, na verdade, em 55 a.C., mas a contagem para trás tinha começado. Nos séculos seguintes, o ano do Senhor se espalhou pelas crônicas e documentos da Europa cristã.
Não existe ano zero
Mais um detalhe pesa na conta: não houve ano 0. A contagem passa direto de 1 a.C. para 1 d.C., porque nem Dionísio nem Beda usavam o zero. Assim, uma criança nascida em 5 a.C. fez dez anos em 6 d.C., e não em 5 d.C. Os astrônomos depois acrescentaram um ano 0 para facilitar os cálculos; os historiadores nunca. É também por isso que os mais rigorosos insistiam que o terceiro milênio começou em 1º de janeiro de 2001, e não em 2000.
Antes de Cristo, depois de Cristo
Em latim, a fórmula é Anno Domini, “no ano do Senhor”, que o inglês abrevia AD. O português preferiu outra imagem: “antes de Cristo” e “depois de Cristo”, a.C. e d.C. Em textos acadêmicos aparecem também a.E.C. e E.C., “antes da Era Comum” e “Era Comum”, para evitar um rótulo religioso. Os números continuam os de Dionísio, com erro e tudo. E o calendário guarda o resultado curioso: pela própria conta, Jesus nasceu alguns anos antes de Cristo.
Fontes
- Mateus 2:1–23; Lucas 1:5; 2:1–7
- Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 17.167–191
- Dionísio, o Exíguo, Carta ao bispo Petrônio sobre o ciclo pascal (525)
- Beda, História Eclesiástica do Povo Inglês 1.2 (731)
- Georges Declercq, Anno Domini: The Origins of the Christian Era (2000)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.