A resposta curta
De uma doença longa e horrível. O historiador Flávio Josefo descreve febre, uma coceira insuportável, pés inchados, gangrena com vermes e falta de ar. Herodes tentou banhos termais, perdeu a esperança e morreu em Jericó, provavelmente na primavera de 4 a.C., com uns setenta anos, cinco dias depois de mandar matar o filho. Foi sepultado no Heródio.
Revisado em
A doença, segundo Josefo
Quase tudo o que sabemos vem de Flávio Josefo, o historiador judeu, que escreveu uns oitenta anos depois, apoiado na obra de Nicolau de Damasco, amigo de Herodes. Ele descreve os sintomas com um cuidado sombrio (Guerra dos Judeus 1.656; Antiguidades Judaicas 17.168–169):
- febre baixa e uma coceira insuportável no corpo inteiro
- dores constantes no intestino e uma fome que nada saciava
- pés inchados, cheios de líquido, e o ventre inflamado
- gangrena nas partes íntimas, que produzia vermes
- falta de ar tão forte que ele só respirava sentado, mau hálito e convulsões em todos os membros
Os adivinhos diziam que era castigo. Pouco antes, rapazes incentivados por dois mestres tinham derrubado a águia de ouro que Herodes pusera sobre o portão do Templo, e Herodes os mandou queimar vivos. Naquela noite, acrescenta Josefo, houve um eclipse da lua (Antiguidades Judaicas 17.167).
As últimas semanas em Jericó
Herodes ainda queria viver. Nas fontes termais de Calírroe, perto do mar Morto, os médicos o mergulharam numa banheira de azeite morno, e ele desmaiou. Sem esperança, voltou ao palácio de inverno de Jericó.
Ali, diz Josefo, planejou o seu ato mais cruel. Convocou os homens mais importantes da nação, trancou-os no hipódromo e mandou a irmã, Salomé, matá-los assim que ele morresse, para que o país chorasse no seu enterro, ainda que não fosse por ele. Salomé os soltou.
Então uma carta de Augusto o deixou livre para decidir o destino do primogênito, Antípatro, condenado por conspirar contra o pai. Herodes pediu uma maçã e uma faca e tentou se apunhalar; o primo Aquiabo segurou a mão dele. Ao ouvir os gritos, Antípatro achou que o pai tinha morrido e tentou subornar o carcereiro. Herodes mandou matá-lo na hora e morreu cinco dias depois (Antiguidades Judaicas 17.187–191).
Quando ele morreu?
Josefo dá a Herodes trinta e sete anos de reinado desde a nomeação por Roma e situa a morte depois daquele eclipse e antes de uma Páscoa. A maioria dos historiadores a data na primavera de 4 a.C., depois do eclipse de 13 de março daquele ano; uma minoria defende 1 a.C. Como Mateus põe o nascimento de Jesus antes da morte de Herodes (Mateus 2:19), é por causa dessa data que o nascimento de Jesus cai “antes de Cristo”, como explica a página sobre o 25 de dezembro.
O enterro e o túmulo
O filho Arquelau lhe deu um cortejo de rei. O corpo ia num leito de ouro cravejado de pedras preciosas, envolto em púrpura, com diadema e coroa de ouro na cabeça e cetro na mão direita. Atrás marchavam as tropas trácias, germânicas e gaulesas e o exército inteiro, e depois quinhentos criados levando especiarias, até o Heródio, o seu palácio-fortaleza numa colina em forma de cone perto de Belém (Antiguidades Judaicas 17.196–199).
Por séculos o túmulo ficou perdido. Ehud Netzer escavou o Heródio a partir de 1972 e, em 2007, anunciou ter achado na encosta o que identificou como o túmulo de Herodes: a base de um mausoléu e os pedaços de um sarcófago de pedra ornamentado, sem corpo. Em 2013, dois arqueólogos, Joseph Patrich e Benjamin Arubas, argumentaram que era modesto demais para Herodes. Netzer não pôde responder: tinha morrido numa queda no próprio sítio, em 2010.
Vermes, tiranos e outro Herodes
Médicos modernos já propuseram doença renal crônica, gangrena de Fournier e outros diagnósticos; sem o corpo, nada se prova. Os leitores antigos viam outra coisa: na tradição judaica, era assim que os tiranos morriam. O Segundo Livro dos Macabeus diz que vermes saíam do corpo do perseguidor Antíoco IV (2 Macabeus 9:9).
Imediatamente um anjo do Senhor o feriu, porque ele não deu glória a Deus. Então ele foi comido por vermes e morreu.
Esse versículo costuma ser atribuído a Herodes, o Grande, mas fala do neto dele, Herodes Agripa I, que morreu em Cesareia em 44 d.C.
Fontes
- Flávio Josefo, Guerra dos Judeus 1.647–673
- Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 17.146–199
- Mateus 2:19–22; Atos 12:20–23; 2 Macabeus 9:5–12
- Museu de Israel, Herod the Great: The King’s Final Journey (exposição, 2013)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.