A Bíblia · História

Herodes matou mesmo os bebês de Belém?

A resposta curta

Ninguém consegue provar nem uma coisa nem outra. Só Mateus conta a história, e Josefo, que descreve em detalhe as crueldades de Herodes, nunca a menciona. Belém era uma aldeia: os meninos de até dois anos seriam uma ou duas dezenas. Alguns historiadores acham a ordem típica de Herodes; outros veem nela um eco da ordem do Faraó no Êxodo.

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O que Mateus diz

Magos estrangeiros chegam a Jerusalém procurando o recém-nascido “rei dos judeus”, título que o próprio Herodes usava. Herodes os chama em segredo e quer saber “exatamente quando a estrela havia aparecido” (Mateus 2:7). Avisados num sonho, os magos voltam por outro caminho. Enganado, Herodes manda matar todos os meninos de Belém e arredores, “de dois anos para baixo”, conforme o tempo que tinha apurado com os magos (Mateus 2:16). Um anjo já tinha mandado José, Maria e o menino para o Egito (Mateus 2:13).

Mateus ouve ali um lamento antigo. Raquel, a mãe de Israel, foi sepultada no caminho de Efrata, isto é, Belém (Gênesis 35:19), e Jeremias a imaginou chorando pelos filhos perdidos.

Uma voz se ouviu em Ramá, lamentação, choro e grande pranto, Raquel chorando por seus filhos; e ela não quis ser consolada, porque eles já não existem.

Mateus 2:18

O silêncio das outras fontes

Nenhum outro escritor antigo conta essa história, e é aí que mora o debate. Flávio Josefo, escrevendo por volta de 93 d.C., dedica à vida de Herodes boa parte de quatro livros das suas Antiguidades. Registra o afogamento do jovem sumo sacerdote Aristóbulo, a execução da esposa Mariane e de três filhos, os rapazes queimados vivos por derrubar a águia de ouro da porta do Templo e a ordem de matar os notáveis da nação quando o rei morresse. Sobre Belém, nada. Também não há nada nos fragmentos de Nicolau de Damasco, amigo e cronista da corte de Herodes. E o próprio Lucas não deixa espaço para uma fuga: quarenta dias depois do parto, a família apresenta o bebê no Templo e volta para Nazaré (Lucas 2:22, 39).

Quem acha que aconteceu responde com números. Belém era uma aldeia de talvez mil habitantes. Meninos de até dois anos seriam uns vinte, provavelmente menos: uma tragédia para a aldeia, um rodapé num reinado de matanças. Josefo não registrou tudo.

Uma história com a forma de Moisés

Outros reparam como a cena segue de perto o Êxodo.

O Faraó ordenou a todo o seu povo, dizendo: “Vocês lançarão no rio todo filho que nascer, e deixarão viva toda filha.”

Êxodo 1:22

Na versão de Josefo para a infância de Moisés, um escriba sagrado avisa o Faraó de que vai nascer um menino hebreu capaz de humilhar o Egito, e só então o rei manda afogar os meninos (Antiguidades 2.205–206). Um sábio avisa, um rei se assusta, uma geração morre, um menino escapa. Mateus chega a repetir as palavras. Quando Herodes morre, o anjo diz a José que “aqueles que procuravam tirar a vida do menino estão mortos” (Mateus 2:20), quase o mesmo que Deus disse a Moisés em Midiã: “todos os homens que procuravam tirar a sua vida estão mortos” (Êxodo 4:19). Muitos estudiosos leem o massacre como Mateus apresentando Jesus como um novo Moisés. Outros respondem que um paralelo não prova invenção, e que o crime combina com o rei.

Como o número cresceu

Mateus não dá número nenhum. A tradição deu. A liturgia bizantina fala em 14.000 Santos Inocentes, uma antiga lista síria de santos em 64.000, e fontes coptas em 144.000, o número de Apocalipse 14. Por volta de 400 d.C., o escritor romano Macróbio conta a piada de Augusto, a de que era melhor ser porco de Herodes do que filho de Herodes, e a liga aos meninos de até dois anos mortos por ordem do rei, entre eles um filho do próprio Herodes (Saturnálias 2.4.11). É o único autor antigo não cristão a falar de uma matança assim, mas escreveu quatro séculos depois, e os filhos executados de Herodes eram adultos. A maioria dos historiadores acha que ele repetia a história cristã. A piada em si está na vida de Herodes.

A Igreja do Ocidente lembra os Santos Inocentes em 28 de dezembro, e as Igrejas do Oriente, em 29. No mundo hispânico, de Madri ao México, o 28 de dezembro virou dia de pegadinhas, as inocentadas, como o 1º de abril no Brasil.

Fontes

  • Mateus 2:1–23; Lucas 2:22–39
  • Gênesis 35:19; Jeremias 31:15; Êxodo 1:22; 4:19
  • Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 2.205–206; 14–17
  • Macróbio, Saturnálias 2.4.11
  • R. T. France, The Gospel of Matthew (2007)

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.