Roma Antiga · Significado

O que é o calendário juliano?

A resposta curta

É o calendário que Júlio César criou em 45 a.C.: 365 dias, com um dia extra a cada quatro anos, numa média de 365 dias e um quarto. Substituiu o caótico calendário romano de 355 dias. Como cada ano ficava uns 11 minutos longo demais, o papa Gregório XIII o corrigiu em 1582, criando o calendário gregoriano de hoje.

Revisado em

A bagunça antes de César

O ano romano antigo tinha 355 dias, dez a menos que o do sol. Para compensar, os pontífices, o colégio de sacerdotes de Roma, podiam encaixar um mês extra em fevereiro, mais ou menos de dois em dois anos. E usavam esse poder na política: um ano mais longo segurava os amigos no cargo, um mais curto encurtava o mandato dos inimigos. Suetônio conta que, no tempo de César, as festas da colheita já não caíam no verão, nem as da vindima no outono (Júlio 40).

César, como pontífice máximo, tinha autoridade para consertar. Com Sosígenes, um astrônomo de Alexandria, escolheu um ano baseado só no sol (Plínio, História Natural 18.211). Primeiro era preciso pôr as estações no lugar, e por isso 46 a.C. foi esticado para 445 dias, com três meses extras. Macróbio o chama de último ano da confusão. O novo calendário começou em 1º de janeiro de 45 a.C.

Por que bissexto

César acrescentou dez dias ao ano, espalhados por sete meses, e assim os meses ganharam a duração que têm até hoje. A cada quatro anos, fevereiro ganhava um dia. Os romanos contavam os dias para trás a partir de datas fixas, e simplesmente contavam duas vezes o sexto dia antes do primeiro de março: bis sextus, o sexto repetido. É daí que vem a nossa palavra bissexto. O inglês, sem essa herança, diz leap year.

César inventou o ano bissexto? Não exatamente. Um decreto de sacerdotes egípcios em Canopo, em 238 a.C., já tinha mandado acrescentar um dia a cada quatro anos, mas a regra não pegou. César a fez pegar, por pouco. Depois da morte dele, os pontífices, contando de forma inclusiva, punham o dia extra a cada três anos, e Augusto teve de pular alguns anos bissextos para desfazer o erro (Macróbio, Saturnais 1.14.13–15).

Julho e agosto

O mês em que César nasceu, Quintilis, o quinto do ano romano mais antigo, foi rebatizado de Iulius em sua honra, em 44 a.C. Em 8 a.C., o Senado deu a Sextilis o nome de Augusto, porque o primeiro consulado dele e a tomada do Egito tinham caído nesse mês (Macróbio, Saturnais 1.12.35). Setembro, outubro, novembro e dezembro ainda guardam os números antigos, sétimo a décimo, do tempo em que o ano começava em março.

Uma história popular diz que Augusto roubou um dia de fevereiro para que o mês dele não ficasse menor que o de César. É invenção medieval, atribuída ao estudioso do século XIII Johannes de Sacrobosco. Com a reforma de César, Sextilis já tinha 31 dias.

A correção do papa Gregório

O ano médio de César, de 365 dias e um quarto, é uns 11 minutos mais longo que o ano solar. Isso soma um dia inteiro a cada 128 anos, mais ou menos. No século XVI, o equinócio da primavera do hemisfério norte, do qual depende a data da Páscoa, tinha escorregado de 21 de março, onde caía na época do Concílio de Niceia, para cerca de 11 de março. Em 1582, o papa Gregório XIII, na bula Inter gravissimas, cortou dez dias: a quinta-feira, 4 de outubro de 1582, foi seguida pela sexta-feira, 15 de outubro. Ele também mudou a regra. Os anos de virada de século só são bissextos se forem divisíveis por 400: 1600 e 2000 foram, 1700, 1800 e 1900 não.

Portugal, então unido à Espanha, e com ele o Brasil colonial, mudou já em 1582. A Grã-Bretanha esperou até 1752, a Rússia até 1918, a Grécia até 1923. Mas o calendário juliano continua vivo. Várias igrejas ortodoxas, entre elas as da Rússia, da Sérvia e da Geórgia, ainda o usam nas festas. Hoje ele está 13 dias atrás, por isso o Natal delas, em 25 de dezembro, cai em 7 de janeiro do calendário gregoriano. A partir de 2100, a diferença será de 14 dias.

Fontes

  • Suetônio, Vida de Júlio César 40
  • Plínio, o Velho, História Natural 18.211
  • Macróbio, Saturnais 1.12–1.14
  • Censorino, De die natali 20
  • Gregório XIII, bula Inter gravissimas (1582)