Mitos gregos · Expressões

De onde vem a expressão ‘presente de grego’?

A resposta curta

Vem da Eneida, de Virgílio, poema latino escrito no século I a.C. Diante do cavalo de madeira, o sacerdote troiano Laocoonte avisa: “timeo Danaos et dona ferentes”, ou “temo os gregos, mesmo quando trazem presentes” (Eneida 2.49). Daí nasceu o presente de grego: aquele que chega como gentileza e acaba trazendo prejuízo.

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O que quer dizer presente de grego

No Brasil, presente de grego é aquilo que chega como favor e sai caro: o carro usado que vive na oficina, o cargo que ninguém queria, a viagem ganha num sorteio que custa uma fortuna em taxas. A expressão vale para coisas e para situações, quase sempre com ironia: alguém oferece, você aceita contente e só depois descobre o problema. Da mesma história saiu outra expressão parecida, o cavalo de Troia, usada para quem entra disfarçado de aliado e trabalha contra quem o recebeu.

A frase de Laocoonte

A origem está no canto 2 da Eneida, em que Eneias conta à rainha Dido, de Cartago, como Troia caiu. O acampamento grego virou cinzas, a frota sumiu e um cavalo de madeira gigante ficou na praia. Enquanto os troianos discutem o que fazer, Laocoonte desce correndo da cidadela e grita: “Vocês acham que algum presente dos gregos está livre de traição?” E completa com o verso que atravessou os séculos:

Seja o que for, temo os gregos, mesmo quando trazem presentes.

Virgílio, Eneida 2.49

Depois crava a lança no flanco do cavalo, que ressoa oco. Se os troianos tivessem escutado, diz Eneias a Dido, Troia ainda estaria de pé.

Do latim ao português

Em latim, o verso inteiro é quidquid id est, timeo Danaos et dona ferentes. Danaos são os dânaos, um dos nomes que Homero dá aos gregos, ao lado de aqueus e argivos; dona ferentes quer dizer trazendo presentes. O português fez uma coisa curiosa. Em vez de guardar o aviso inteiro, como o inglês fez com “beware of Greeks bearing gifts”, condensou tudo no próprio objeto: o presente virou de grego, e a desconfiança ficou embutida na palavra. Laocoonte, aliás, não condenava presentes em geral. Dizia que aqueles inimigos eram mais perigosos justamente quando pareciam generosos.

As serpentes

Laocoonte tinha razão, e os deuses o calaram. Enquanto ele sacrificava um touro a Netuno, duas serpentes enormes vieram nadando de Tênedos e mataram os dois filhos pequenos dele e depois o próprio sacerdote. Os troianos entenderam aquilo como castigo por ele ter ferido uma oferenda sagrada e abriram a muralha para puxar o cavalo para dentro. Nos poemas gregos mais antigos, a ordem muda: no Saque de Troia, resumido por Proclo, as serpentes matam Laocoonte e um dos filhos quando o cavalo já está lá dentro. A história do cavalo está em O cavalo de Troia existiu?, e a da outra voz ignorada naquela noite, em Quem foi Cassandra na mitologia grega?

O mármore de 1506

Em 14 de janeiro de 1506, uma escavação numa vinha do monte Esquilino, em Roma, desenterrou uma escultura de mármore de Laocoonte e dos filhos presos pelas serpentes. O papa Júlio II mandou ao local o arquiteto Giuliano da Sangallo, que levou Michelangelo junto. Pouco depois, o papa comprou a peça, que está até hoje nos Museus Vaticanos. No século I d.C., Plínio, o Velho, já a descrevia no palácio do imperador Tito e citava os escultores, três artistas de Rodes: Hagesandro, Polidoro e Atenodoro. Virgílio escreveu a Eneida entre 29 e 19 a.C., sob Augusto. Os romanos se diziam descendentes do troiano Eneias, e por isso o poema conta a queda de Troia do ponto de vista dos vencidos, com os gregos no papel de enganadores (Como Roma foi fundada?).

Fontes

  • Virgílio, Eneida 2.40–56 e 2.199–233
  • Proclo, resumo do Saque de Troia
  • Plínio, o Velho, História Natural 36.37
  • Grupo de Laocoonte, Museu Pio-Clementino, Museus Vaticanos