Mitos gregos · Pessoas

Quem foi Cassandra na mitologia grega?

A resposta curta

Cassandra foi uma princesa de Troia, filha do rei Príamo e da rainha Hécuba. Em mitos posteriores a Homero, o deus Apolo lhe deu o dom da profecia e, quando ela o recusou, fez com que ninguém jamais acreditasse nela. Ela avisou que o cavalo de madeira estava cheio de homens armados, e Troia não a ouviu.

Revisado em

A Cassandra de Homero

Na Ilíada, Cassandra ainda não é profetisa. Homero diz que ela é a mais bela das filhas de Príamo quando um aliado recém-chegado, Otrioneu, luta em troca da promessa de casar com ela (Ilíada 13.365–369). No último canto, é a primeira a ver o pai voltando pela planície com o corpo de Heitor, e acorda a cidade com um grito: “Venham, troianos, homens e mulheres, e vejam Heitor” (24.704). A profetisa vem de outros poetas.

O dom e a maldição

O relato mais conhecido de como ela ganhou o dom está no manual de mitos de Apolodoro:

Querendo conquistar Cassandra, Apolo prometeu ensinar-lhe a arte da profecia; ela aprendeu a arte, mas o recusou; por isso Apolo tirou da profecia dela o poder de convencer.

Apolodoro, Biblioteca 3.12.5

Ésquilo, no Agamêmnon, de 458 a.C., deixa que a própria Cassandra conte: ela fez uma promessa ao deus e não cumpriu. Comentadores posteriores acrescentaram versões mais estranhas. Sérvio, que comentou Virgílio em latim, dizia que Apolo lhe tirou o poder de persuadir cuspindo-lhe na boca. Outra tradição contava que, ainda crianças, ela e o irmão Heleno passaram uma noite no templo de Apolo e acordaram com serpentes lambendo-lhes os ouvidos, e assim ganharam o dom. Em todas as versões ela vê a verdade, e isso não lhe serve de nada.

Avisos que ninguém ouviu

  • No nascimento de Páris. Na tragédia Andrômaca, de Eurípides, o coro recorda que ela gritou para que o bebê de mau agouro não fosse criado.
  • Quando Páris constrói os navios. O resumo dos Cantos Cíprios diz que Cassandra profetizou o que viria daquela viagem.
  • Diante do cavalo. Apolodoro conta que ela avisou que havia uma tropa armada lá dentro, e o adivinho Laocoonte lhe deu razão (Epítome 5.17). Virgílio lhe dá o mesmo momento: ela abre a boca por ordem de um deus, e os troianos nunca acreditam (Eneida 2.246–247).

Mesmo assim, Troia puxou o cavalo para dentro e festejou. O aviso de Laocoonte está em De onde vem a expressão ‘presente de grego’?, e o cavalo, em O cavalo de Troia existiu?

No palco e nos livros

Foi Ésquilo quem deu a ela a grande cena. Levada a Argos como cativa de Agamêmnon, Cassandra rompe um longo silêncio gritando por Apolo, faz um trocadilho com o nome do deus, que em grego soa como destruidor, e prevê a própria morte e a do rei. O coro de velhos a admira e não consegue acompanhá-la. Shakespeare a põe em Troilo e Créssida (por volta de 1602), entrando de repente para gritar que Troia vai queimar enquanto os irmãos discutem se devolvem Helena. Em 1983, Christa Wolf, escritora da Alemanha Oriental, recontou a guerra inteira pelos olhos dela no romance Kassandra.

Ser uma Cassandra

O nome virou substantivo comum. Uma Cassandra é uma pessoa que avisa, acerta e não é levada a sério: o engenheiro que aponta a rachadura antes do desabamento, o economista que prevê a crise cedo demais para ser ouvido. No Brasil, a palavra aparece em colunas de opinião e conversas de escritório, quase sempre com simpatia, porque o mito nunca diz que ela errou. Chamar alguém de Cassandra é admitir, de antemão, que talvez essa pessoa tenha razão.

Fontes

  • Homero, Ilíada 13.361–369 e 24.697–706
  • Apolodoro, Biblioteca 3.12.5 e Epítome 5.17
  • Proclo, resumo dos Cantos Cíprios
  • Ésquilo, Agamêmnon 1072–1330 (458 a.C.)
  • Virgílio, Eneida 2.246–247; Eurípides, Andrômaca 293 e seguintes