A Bíblia · Expressões

De onde vem “não há nada de novo debaixo do sol”?

A resposta curta

Da Bíblia: Eclesiastes 1:9, “não há nada novo debaixo do sol”. Quem fala é o Pregador, que a tradição identifica com o rei Salomão. Ele vê o sol, o vento e os rios girando sem parar e conclui que a vida humana também se repete. O que parece novo, diz ele, já aconteceu e foi esquecido.

Revisado em

O versículo

O que foi é o que será, e o que foi feito é o que se fará; e não há nada novo debaixo do sol.

Eclesiastes 1:9

A frase fecha um poema curto no começo do Eclesiastes (1:3–11). Quem fala, Coélet, o Pregador, acabou de fazer a pergunta que abre o livro: “Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com o qual se fatiga debaixo do sol?” (1:3). Para responder, ele olha para a natureza.

Os círculos do capítulo 1

  • As gerações. “Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra permanece para sempre” (1:4).
  • O sol. Nasce, se põe e “apressa-se para o seu lugar de onde nasce” (1:5), como quem corre ofegante para dar a mesma volta outra vez.
  • O vento. Para o sul, depois para o norte, girando e girando, de volta aos seus circuitos (1:6).
  • Os rios. “Todos os rios correm para o mar, contudo o mar não se enche” (1:7).
  • Olhos e ouvidos. “O olho não se satisfaz de ver, nem o ouvido se enche de ouvir” (1:8).

Tudo se move, e nada chega. Só então ele se volta para as pessoas: o que fazemos já foi feito e será feito de novo. Ele até responde de antemão à objeção. Existe alguma coisa de que se possa dizer “isto é novo”? Já existiu há muito tempo, responde, “nas eras que foram antes de nós” (1:10). Só parece novo porque “não há memória das coisas passadas” (1:11). A queixa dele é menos que a história se repete e mais que a gente esquece.

“Debaixo do sol”

A expressão “debaixo do sol” aparece 29 vezes no Eclesiastes e em nenhum outro livro da Bíblia. Ela marca o ponto de vista do livro: a vida vista do chão, por alguém que não finge enxergar além do que enxerga. Era uma expressão antiga na região. O sarcófago do rei Eshmunazar II de Sidom, gravado em fenício no período persa e hoje no Louvre, usa a mesma expressão na maldição contra quem perturbar o descanso do rei. O latim de Jerônimo, nihil sub sole novum, virou provérbio. No Brasil, a frase convive com uma prima, a versão popular da lei de Lavoisier: “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

O sol também nasce

O versículo 5 deu ao século XX um título famoso. Em português, ele diz: “O sol também nasce, e o sol se põe”. Ernest Hemingway tirou dele, da versão inglesa King James, o título do romance de 1926 que no Brasil se chama O Sol Também se Levanta, e pôs Eclesiastes 1:4–7 como epígrafe, abaixo de uma frase de Gertrude Stein: “Vocês são todos uma geração perdida”. Os expatriados do livro vagam dos cafés de Paris às touradas de Pamplona, andando em círculos, enquanto a terra permanece.

O resto da Bíblia concorda?

Nem todas as vozes. O próprio Eclesiastes desconfia da nostalgia: “Não diga: ‘Por que os dias passados foram melhores do que estes?’” (7:10). Outros livros insistem no novo. Em Isaías, Deus diz: “Eis que farei uma coisa nova” (Isaías 43:19), e perto do fim do Apocalipse, quem está no trono diz: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21:5). O Pregador descreve a vida como a encontra debaixo do sol, e chama tudo de hevel, sopro, como explica o que significa “vaidade de vaidades”. Desde então os leitores discutem se esse círculo é desespero, honestidade ou o começo da sabedoria.

Fontes

  • Eclesiastes 1:1–11; 7:10
  • Isaías 43:18–19; Apocalipse 21:5
  • Sarcófago de Eshmunazar II, Museu do Louvre, Paris
  • Ernest Hemingway, The Sun Also Rises (1926)

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.