A resposta curta
Talvez, mas não há registro seguro. O certo é que, em 1876, Pedro II abriu a Exposição do Centenário, na Filadélfia, ao lado do presidente americano Ulysses Grant, e que lá Alexander Graham Bell lhe mostrou o telefone. A exclamação “Meu Deus, isto fala!” é tradição: pode ter sido dita, mas nenhum documento seguro a confirma.
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O imperador na Filadélfia
Em 1876, os Estados Unidos comemoravam cem anos de independência com uma grande exposição na Filadélfia, a Exposição do Centenário. Pedro II cruzava o país naquele ano, o primeiro monarca brasileiro a pisar lá. Em 10 de maio, abriu a exposição ao lado do presidente Ulysses Grant, e os dois puseram em marcha a gigantesca máquina a vapor Corliss, que movia o Pavilhão das Máquinas. Um desenho de Theodore Davis, guardado na Biblioteca do Congresso americano, mostra a dupla diante da máquina.
Era um turista fora do comum, um imperador que estudava línguas de madrugada e colecionava fotografias desde a adolescência. Novidade técnica era com ele.
O professor e o aparelho
Na exposição estava também Alexander Graham Bell, um escocês radicado em Boston que ensinava surdos a falar. Em março daquele ano, ele tinha recebido nos Estados Unidos a patente de um aparelho novo: o telefone. Na Filadélfia, Bell o mostrou ao imperador.
De onde vem a frase
A exclamação “Meu Deus, isto fala!”, em inglês “My God, it talks!”, virou o resumo da cena e passou a ser contada e recontada nas duas línguas. É uma boa frase, e combina com os dois personagens. O problema é a fonte: não há registro seguro de que Pedro II a tenha dito. Pode ter dito. Pode ter sido arredondada por quem contou a história depois. É o mesmo caso do “Quero já!”, a resposta que a tradição põe na boca do menino de 14 anos no dia da maioridade: famosa, mas só atribuída.
O que é certo
- 7 de março de 1876: Bell recebe a patente americana nº 174.465, do telefone.
- 10 de maio de 1876: Pedro II e Grant abrem a Exposição do Centenário.
- Na exposição: Bell mostra o telefone ao imperador.
- Sem registro seguro: a frase “Meu Deus, isto fala!”.
Por que a história pegou
A cena tem tudo para virar lenda: um imperador de barba branca, vindo de um país distante, encantado com a máquina que ia mudar o mundo. E combina com a imagem que Pedro II construiu para si, a do imperador sábio, como mostra a historiadora Lilia Schwarcz em As barbas do imperador. Em 2026, quando o telefone completa 150 anos, a anedota merece ser contada, com a ressalva.
O resto da vida dele, do menino imperador de 1831 ao exílio de 1889, está em Quem foi Dom Pedro II?, e o fim da história, em O que aconteceu com Dom Pedro II depois da Proclamação da República?
Fontes
- Patente americana nº 174.465, Alexander Graham Bell, 7 de março de 1876
- Theodore R. Davis, “Our Centennial: President Grant and Dom Pedro starting the Corliss engine” (1876), Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos
- Robert V. Bruce, Bell: Alexander Graham Bell and the Conquest of Solitude (1973)
- Lilia Moritz Schwarcz, As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos (1998)