A resposta curta
Ninguém sabe ao certo, porque o Gênesis não traz datas. Somando os números da própria Bíblia, chega-se a um nascimento por volta de 2166 a.C.; a contagem judaica tradicional dá cerca de 1812 a.C. Historiadores que veem memória real nas histórias as situam na Idade do Bronze Média, entre 2000 e 1550 a.C. Outros pensam numa época bem posterior.
Revisado em
Idades, não datas
O Gênesis não cita nenhum governante que se possa datar. O rei do Egito que leva Sarai para o palácio é só “o Faraó” (12:15). Os quatro reis que atacam o vale do Jordão em Gênesis 14, Anrafel de Sinar, Arioque, Quedorlaomer de Elão e Tidal, não batem com nenhum rei conhecido. Já se quis ver em Anrafel o rei Hamurábi, da Babilônia, ideia hoje abandonada. O que o texto dá são idades.
Então Abrão foi, como o SENHOR lhe havia dito. Ló foi com ele. Abrão tinha setenta e cinco anos de idade quando partiu de Harã.
E em que ano ele saiu de Ur? O texto não diz: dá a idade da saída de Harã, nenhuma para a de Ur (11:31).
Contando para trás a partir de Salomão
Para transformar idades em anos, os leitores encadeiam os números a partir de um ponto fixo. O mais usado é o Templo, começado “no quadringentésimo octogésimo ano depois que os filhos de Israel saíram da terra do Egito” (1 Reis 6:1). O quarto ano de Salomão costuma ser fixado por volta de 966 a.C., o que põe o Êxodo em 1446 a.C. Israel morou 430 anos no Egito (Êxodo 12:40): Jacó chegou lá por volta de 1876 a.C., com 130 anos (Gênesis 47:9). Isaque tinha sessenta quando Jacó nasceu, e Abraão, cem quando nasceu Isaque (25:26; 21:5). Resultado: Abraão teria nascido por volta de 2166 a.C. e saído de Harã em 2091 a.C. Cada elo, porém, é uma escolha: a Septuaginta, a tradução grega, conta os 430 anos somando Canaã e Egito, e Abraão fica uns dois séculos mais recente.
Contando para a frente desde a criação
O outro caminho soma as idades das listas de família de Gênesis 5 e 11, de Adão até Terá. A tradição judaica, seguindo a antiga crônica Seder Olam, põe o nascimento de Abraão no ano 1948 da criação, cerca de 1812 a.C. O arcebispo irlandês James Ussher, que em 1650 datou a criação em 4004 a.C., chegou a 1996 a.C.
Parte da diferença vem de um quebra-cabeça do texto. Terá tinha setenta anos quando os filhos nasceram (11:26) e morreu em Harã com 205 (11:32). Mas Estêvão, em Atos 7:4, diz que Abrão, então com setenta e cinco anos, só deixou Harã depois da morte do pai. Ussher fechou a conta dando a Terá 130 anos no nascimento de Abrão.
O que a arqueologia consegue dizer
Nenhuma inscrição fora da Bíblia cita Abraão. Em meados do século XX, estudiosos liderados por William F. Albright puseram os patriarcas na Idade do Bronze Média, entre 2000 e 1550 a.C. Viam costumes que pareciam combinar, como o de Sarai, a esposa sem filhos que entrega a escrava ao marido, previsto em contratos de casamento da Mesopotâmia e no Código de Hamurábi, do século XVIII a.C.
Nos anos 1970, Thomas L. Thompson e John Van Seters mostraram que muitos desses paralelos também cabiam em séculos posteriores. E alguns detalhes soam mesmo mais tardios:
- Camelos. O Faraó dá camelos a Abrão (12:16), mas o camelo domesticado aparece na região séculos depois de qualquer data proposta, ponto ainda discutido.
- Filisteus. Abraão mora “na terra dos filisteus” (21:34), um povo que se fixou no litoral de Canaã no século XII a.C.
- Caldeus. “Ur dos Caldeus” usa um nome de mais ou menos mil anos depois da data tradicional de Abraão, como mostra a página sobre Ur hoje.
Afinal, quando?
Muitos judeus e cristãos de leitura tradicional tomam os números como história e põem Abraão perto de 2000 a.C., com margem de dois séculos. Alguns historiadores veem a Idade do Bronze Média como o cenário das histórias, qualquer que seja a data em que foram escritas. Outros acham que Abraão pertence à memória do Israel posterior, posta por escrito no primeiro milênio a.C. Uma data é firme: o Carneiro preso no arbusto de Ur, batizado por Leonard Woolley a partir de Gênesis 22, foi feito por volta de 2500 a.C., antes de qualquer data proposta para Abraão.
Fontes
- Gênesis 5:1–32; 11:10–32; 12:4–16; 14:1–12; 21:5, 32–34; 25:26; 47:9
- Êxodo 12:40–41; 1 Reis 6:1; Atos 7:2–4
- Código de Hamurábi, leis 144–147
- Seder Olam Rabbah; James Ussher, Annales Veteris Testamenti (1650)
- Thomas L. Thompson, The Historicity of the Patriarchal Narratives (1974); John Van Seters, Abraham in History and Tradition (1975)
- Carneiro preso no arbusto (Ur, cerca de 2500 a.C.), Museu Britânico e Museu Penn
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.