A resposta curta
Diretamente, não. Nenhuma inscrição ou papiro egípcio cita José, e nenhum registro confirma a fome de sete anos. O que a arqueologia mostra é o mundo que a história descreve: servos semitas em casas egípcias, estrangeiros em altos cargos, uma inscrição tardia sobre sete anos de fome e costumes egípcios que o texto acerta, como o embalsamamento.
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O que não foi encontrado
Nenhuma inscrição, papiro ou túmulo egípcio cita um alto funcionário hebreu chamado José, nem Zafenate-Paneia, o nome que Faraó lhe deu. Nenhum registro egípcio fala de uma fome de sete anos que terminou com Faraó dono de todas as terras. O Gênesis não diz o nome do Faraó da história, então não há um reinado para vasculhar. E o delta do Nilo, onde a história se passa, é o pior lugar do Egito para um papiro sobreviver, porque o solo ali é úmido. O silêncio não prova nada, nem contra nem a favor. Mas prova direta não existe.
O que a terra mostra
A arqueologia não encontra José. Encontra, sim, o mundo em que uma história como a dele faz sentido:
- Servos semitas em casas egípcias. O Papiro Brooklyn 35.1446, do Museu do Brooklyn, datado de 1809 a 1743 a.C., registra 95 servos transferidos para a casa de uma mulher. Quarenta e cinco deles são asiáticos, com nomes semitas.
- Estrangeiros no topo. Aperel, vizir de Amenófis III e de Aquenáton no século XIV a.C., tinha um nome semita, talvez ‘Abdi-El, “servo de El”. O arqueólogo francês Alain Zivie encontrou o túmulo dele em Saqqara, em 1987. Por volta de 1200 a.C., um funcionário de origem asiática chamado Bay virou chanceler e chegou a fazer e desfazer reis.
- Reis asiáticos no delta. Os hicsos, governantes vindos do Levante, dominaram o norte do Egito a partir de Ávaris, mais ou menos entre 1650 e 1550 a.C. O historiador judeu Flávio Josefo, citando o sacerdote egípcio Manetão, ligou esses reis aos antepassados de Israel.
- Uma fome de sete anos. A Estela da Fome, gravada num bloco de granito na ilha de Sehel, perto de Assuã, conta sete anos em que o Nilo não encheu, no reinado de Djoser, no século XXVII a.C., até que o deus Khnum promete num sonho a volta da cheia. Só que a inscrição foi feita muito depois, provavelmente sob Ptolomeu V (205 a 180 a.C.). Ela mostra por quanto tempo o Egito guardou esse medo, não que José esteve lá.
Detalhes com cara de Egito
Vários toques do Gênesis combinam com o Egito. José faz a barba antes de ver Faraó (41:14), como faziam os egípcios de posição. A mulher de Potifar o acusa de um jeito muito parecido com o da cunhada que acusa o jovem Bata no Conto de Dois Irmãos, preservado num papiro de cerca de 1200 a.C., hoje no Museu Britânico. E o funeral de Jacó segue o costume egípcio:
José ordenou aos seus servos, os médicos, que embalsamassem seu pai; e os médicos embalsamaram Israel. Quarenta dias foram dedicados a ele, pois esse é o número de dias que se leva para embalsamar. Os egípcios choraram por Israel durante setenta dias.
Os estudiosos discordam sobre o que esses detalhes provam. Kenneth Kitchen defendeu que muito do colorido egípcio da história combina com o segundo milênio a.C. Donald Redford argumentou, em 1970, que nomes como Potífera e Asenate aparecem sobretudo em documentos bem mais tardios, e datou a composição do relato entre os séculos VII e V a.C. Muitos estudiosos hoje o leem como uma novela bem construída, sejam quais forem as lembranças antigas por trás dela.
As pirâmides não eram celeiros
Uma ideia popular não tem apoio nenhum. Desde o fim da Antiguidade, viajantes chamavam as pirâmides de “celeiros de José”, e os mosaicos do século XIII no átrio da Basílica de São Marcos, em Veneza, mostram trabalhadores enchendo pirâmides de feixes. Mas as pirâmides são túmulos, quase maciços, e as grandes de Gizé foram erguidas por volta de 2600 a 2500 a.C., séculos antes de qualquer data proposta para José. Sobre a fome em si, veja quanto tempo ela durou. O outro grande enigma egípcio da Bíblia é quem era o faraó do Êxodo.
Fontes
- Gênesis 37:25–36; 39:1–20; 41:14, 45; 50:2–3
- Papiro Brooklyn 35.1446, Museu do Brooklyn
- Túmulo de Aperel, Bubasteion, Saqqara (escavado por Alain Zivie)
- Estela da Fome, ilha de Sehel, Assuã
- Papiro D’Orbiney (Conto de Dois Irmãos), Museu Britânico
- Flávio Josefo, Contra Apião, livro 1
- Mosaicos de José, átrio da Basílica de São Marcos, Veneza
- K. A. Kitchen, On the Reliability of the Old Testament (2003); D. B. Redford, A Study of the Biblical Story of Joseph (1970)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.