Roma Antiga · Fatos

Júlio César foi sequestrado por piratas?

A resposta curta

Sim. Por volta de 75 a.C., atravessando o Egeu, o jovem César foi capturado por piratas perto da ilhota de Farmacusa, na costa da atual Turquia. Plutarco e Suetônio dizem que ele ficou preso quase quarenta dias, até ser pago um resgate de cinquenta talentos. Livre, ele reuniu uma frota, pegou os piratas e os crucificou, como tinha prometido.

Revisado em

Um mar cheio de piratas

Nos anos 70 a.C., o Mediterrâneo oriental era tanto dos piratas quanto de Roma. As bases principais ficavam na Cilícia, o litoral acidentado do sul da atual Turquia, e as frotas deles atacavam navios e cidades da costa e levavam prisioneiros para resgate ou para venda. Os mercados de escravos faziam o negócio render. O geógrafo Estrabão diz que o porto livre de Delos conseguia receber e despachar dez mil escravos num só dia (Geografia 14.5.2). Roma, ocupada com as próprias guerras civis, tinha deixado o problema crescer.

César tinha uns vinte e cinco anos, um jovem nobre cheio de dívidas e ambições, mas sem cargo nenhum. Suetônio diz que ele navegava para a ilha de Rodes para estudar oratória com o famoso mestre Apolônio Mólon; Plutarco põe a viagem na volta da corte do rei da Bitínia. De um jeito ou de outro, perto de Farmacusa, um pontinho de ilha que hoje é a ilhota grega de Farmakonisi, os piratas tomaram o navio dele.

Vinte talentos? Que sejam cinquenta

A melhor parte da história está em Plutarco. Os piratas pediram vinte talentos por ele. César riu deles por não saberem quem tinham capturado e ofereceu cinquenta. Um talento era um peso de prata de uns 26 quilos, então cinquenta talentos davam cerca de 1.300 quilos de prata. Ele mandou os companheiros às cidades da costa para levantar o dinheiro e ficou com um amigo e dois criados no meio de homens que Plutarco chama de os mais sanguinários do mundo (César 2).

César os tratava como sua guarda pessoal. Quando queria dormir, mandava avisar que fizessem silêncio. Participava dos jogos e exercícios deles. Escrevia poemas e discursos e lia em voz alta, e quando os piratas não aplaudiam, chamava-os na cara de bárbaros analfabetos. Rindo, dizia muitas vezes que ia enforcar todos. Eles achavam que era piada. Suetônio é menos encantador: diz que César passou quase quarenta dias muito contrariado, só com um médico e dois criados (Júlio 4).

Promessa cumprida

O resgate veio de Mileto e, assim que foi pago e ele desembarcou, César armou navios naquele mesmo porto, embora não tivesse comando nenhum. Voltou direto, encontrou os piratas ainda ancorados perto da ilha e capturou a maioria, junto com o dinheiro deles. Trancou os presos na prisão de Pérgamo e foi falar com Júnio, o governador da província da Ásia, a quem cabia puni-los. Júnio estava de olho no dinheiro e disse que pensaria nos prisioneiros com calma. César não esperou. Voltou a Pérgamo e crucificou todos, exatamente como tinha avisado na ilha (Plutarco, César 2).

Suetônio conta o caso como exemplo da brandura de César. Como tinha jurado crucificá-los, cumpriu o juramento, mas mandou cortar a garganta deles antes, para que não sofressem muito na cruz (Júlio 74).

Quanto disso é verdade?

O essencial é sólido. Veleio Patérculo, que escreveu no tempo de Tibério, também conta a história, e Plutarco e Suetônio, um século depois, claramente usaram fontes diferentes, por isso os detalhes variam: trinta e oito dias ou quase quarenta, um amigo e dois criados ou um médico e dois criados, a viagem de ida ou a de volta. Os detalhes mais fanfarrões provavelmente vêm do próprio César, um mestre em contar a própria história. De todo modo, o episódio mostra duas coisas: uma República que não conseguia proteger os próprios mares, até Pompeu varrer os piratas em 67 a.C., e um rapaz que já agia como se mandasse.

Fontes

  • Plutarco, Vida de César 1–2
  • Suetônio, Vida de Júlio César 4 e 74
  • Veleio Patérculo, História Romana 2.41–42
  • Estrabão, Geografia 14.5.2
  • Plutarco, Vida de Pompeu 24–28