A Bíblia · História

Por que os romanos crucificavam as pessoas?

A resposta curta

Para aterrorizar. A crucificação era a morte mais cruel que Roma tinha, reservada a escravos, rebeldes, bandidos e gente sem posição, e quase nunca usada contra cidadãos romanos. Era lenta, humilhante e feita à beira de estradas movimentadas, para que todos vissem quanto custava desafiar Roma. Depois da revolta de Espártaco, 6.000 cruzes se enfileiraram na Via Ápia.

Revisado em

Não foi Roma que inventou

Persas, cartagineses e Alexandre, o Grande, já crucificavam antes de Roma transformar a prática num sistema. Depois de tomar Tiro, em 332 a.C., Alexandre pregou em cruzes 2.000 dos seus defensores ao longo da praia (Cúrcio Rufo, História de Alexandre 4.4.17). Na Judeia, o rei hasmoneu Alexandre Janeu crucificou 800 adversários judeus por volta de 88 a.C. (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 13.380).

Quem era crucificado

Os romanos a chamavam de suplício dos escravos, servile supplicium; a palavra portuguesa suplício vem daí. A cruz era para escravos, piratas, bandidos, rebeldes e provincianos que desafiavam a ordem romana: gente sem posição nem direitos. Cidadãos costumavam escapar. Em 70 a.C., ao acusar o governador Verres, Cícero tornou famoso o caso de um cidadão romano açoitado e crucificado na Sicília, e chamou a crucificação de pena mais cruel e mais repugnante (Contra Verres 2.5.162–170). Na Judeia, só o governador romano podia mandar crucificar, e por isso a responsabilidade pela morte de Jesus volta sempre a Pilatos.

Por que tão cruel

O objetivo era ser visto. Um livro romano de discursos de treino diz que, quando se crucificam os culpados, escolhem-se as estradas mais movimentadas, para que o maior número de pessoas olhe e sinta medo ([Quintiliano], Declamações menores 274). O condenado em geral era açoitado, carregava a trave e era pregado ou amarrado, com uma tabuleta dizendo o crime. A morte podia levar horas ou dias, com o condenado nu, exposto ao sol e às aves. Sêneca descreve cruzes de vários formatos, algumas com a vítima de cabeça para baixo (A Márcia 20.3). Não por acaso, “excruciante” vem do latim excruciare, torturar, da mesma família de crux, cruz.

Às centenas e aos milhares

Quando Roma se sentia ameaçada, crucificava em massa:

  • 71 a.C., Itália. Depois que Crasso esmagou a revolta de escravos de Espártaco, 6.000 prisioneiros foram crucificados ao longo da Via Ápia, de Cápua a Roma (Apiano, Guerras Civis 1.120).
  • 4 a.C., Judeia. Quando estouraram revoltas após a morte de Herodes, Varo, o governador da Síria, crucificou 2.000 rebeldes perto de Jerusalém (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 17.295). Em 9 d.C., o mesmo Varo perderia três legiões na floresta de Teutoburgo.
  • 70 d.C., Jerusalém. Durante o cerco de Tito, diz Josefo, os soldados crucificavam até 500 prisioneiros por dia diante das muralhas, pregando-os em posições diferentes por diversão, até faltar lugar para as cruzes (Guerra Judaica 5.449–451).

O calcanhar de Yehohanan

De tantos milhares, quase nada ficou. A madeira apodrece, os pregos eram arrancados e reaproveitados, e a maioria das vítimas nem era sepultada. Até que, em 1968, operários abriram em Giv’at ha-Mivtar, em Jerusalém, um túmulo de família judaica do século I. Um ossuário de pedra trazia o nome “Yehohanan, filho de Hagkol”. Dentro, o osso do calcanhar direito ainda estava atravessado por um prego de ferro de 11,5 centímetros, com a ponta torta e restos de madeira nas duas pontas: o prego não saiu, e foi enterrado com ele. Em 1985, Joseph Zias e Eliezer Sekeles reexaminaram os ossos e não acharam sinal seguro de pregos nos braços, que provavelmente foram amarrados. Em 2021, arqueólogos anunciaram um segundo calcanhar pregado, de um povoado romano em Fenstanton, na Inglaterra.

De maldição a símbolo

Para os judeus, a cruz tinha uma vergonha a mais, por causa de uma lei da Torá:

o seu corpo não permanecerá a noite toda no madeiro, mas você certamente o sepultará no mesmo dia; pois aquele que é pendurado é maldito de Deus.

Deuteronômio 21:23

Por isso Paulo diz que um Messias crucificado é “pedra de tropeço para os judeus e loucura para os gregos” (1 Coríntios 1:23). Constantino, o primeiro imperador cristão, aboliu a pena no século IV (Aurélio Vítor, Sobre os Césares 41.4), e o instrumento de terror de Roma virou o sinal dos cristãos, cujo fundador tinha morrido numa cruz.

Fontes

  • Deuteronômio 21:22–23; 1 Coríntios 1:23; Gálatas 3:13; Marcos 15:15–24
  • Apiano, Guerras Civis 1.120; Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 13.380, 17.295; Guerra Judaica 5.449–451
  • Cícero, Contra Verres 2.5.162–170; Sêneca, A Márcia 20.3; [Quintiliano], Declamações menores 274
  • Cúrcio Rufo, História de Alexandre 4.4.17; Aurélio Vítor, Sobre os Césares 41.4
  • Joseph Zias e Eliezer Sekeles, “The Crucified Man from Giv’at ha-Mivtar: A Reappraisal”, Israel Exploration Journal 35 (1985)
  • Martin Hengel, Crucifixion in the Ancient World and the Folly of the Message of the Cross (1977)

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.