A resposta curta
Em 9 d.C., Armínio, um príncipe germano que tinha servido no exército romano, levou o governador Públio Quintílio Varo e três legiões para uma emboscada nas florestas do norte da Germânia e as destruiu ao longo de vários dias. Augusto gritou “Varo, devolva as minhas legiões!”. Roma desistiu de criar uma província além do Reno.
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Uma província em construção
Durante vinte anos, os enteados de Augusto, primeiro Druso e depois Tibério, fizeram campanha entre o Reno e o Elba. Em 9 d.C., Roma já tratava aquelas terras como uma província em formação. Os arqueólogos acharam uma das suas cidades novas em Waldgirmes, no estado alemão de Hessen, com um fórum e, um dia, uma estátua equestre de bronze dourado, provavelmente do próprio Augusto. O governador, Varo, tinha vindo da Síria. Veleio Patérculo, que serviu na Germânia, diz que Varo entrou pobre na rica Síria e saiu rico, deixando a província pobre, e que governava os germanos como se fossem um povo pacífico, com tribunais e impostos.
A armadilha
Varo confiava em Armínio. O jovem príncipe dos queruscos tinha comandado tropas germânicas a serviço de Roma, era cidadão romano, tinha a patente de cavaleiro e jantava à mesa do governador. Outro chefe querusco, Segestes, avisou Varo num banquete, conta Tácito, e pediu que ele prendesse Armínio. Varo não deu ouvidos. Em setembro, pela datação mais aceita, ele partiu com três legiões, a XVII, a XVIII e a XIX, três unidades de cavalaria e seis coortes auxiliares, além de carroças, mulheres, crianças e criados. Armínio tinha lhe passado a notícia de uma revolta distante, e a coluna desviou para resolvê-la.
Cássio Dio descreve o que veio depois. Chuva e vento, lama escorregadia, soldados derrubando árvores para abrir caminho, uma coluna esticada por quilômetros no meio da mata fechada. Os germanos atacavam da floresta, recuavam e voltavam a atacar, por três ou quatro dias. No fim, encurralados, Varo e os oficiais mais graduados se mataram para não serem pegos vivos. As estimativas modernas falam em 15.000 a 20.000 soldados perdidos. Tribunos e centuriões capturados, diz Tácito, foram sacrificados em altares germânicos.
O que Kalkriese revelou
Durante séculos ninguém sabia onde tinha sido. Tácito chama o lugar de saltus Teutoburgiensis, o desfiladeiro ou floresta de Teutoburgo, e em 1616 um geógrafo deu esse nome a uma serra perto de Detmold. Em 1987, um oficial do exército britânico, Tony Clunn, saiu com um detector de metais por Kalkriese, ao norte de Osnabrück, e achou moedas romanas de prata, depois balas de chumbo de funda. As escavações desde então encontraram milhares de peças do equipamento romano numa faixa estreita entre um morro e um grande pântano, e restos de um longo muro de terra e turfa na encosta, em geral interpretado como a trincheira germânica da emboscada. As moedas param mais ou menos na época de Varo. Entre os achados está uma máscara de ferro do capacete de um cavaleiro, que já foi coberta de prata, hoje no museu do local. A maioria dos estudiosos aceita Kalkriese como pelo menos uma etapa da batalha.
O que Roma fez depois
Suetônio conta que Augusto deixou o cabelo e a barba crescerem por meses, batia a cabeça numa porta gritando “Quintílio Varo, devolva as minhas legiões!” e guardava luto todo ano naquela data. Os números das três legiões nunca mais foram usados. Armínio mandou a cabeça de Varo a outro rei germano, Marobóduo, que a enviou a Roma para ser sepultada.
Roma revidou. De 14 a 16 d.C., Germânico, sobrinho e filho adotivo de Tibério, atravessou o Reno com grandes exércitos. Em 15 d.C. os seus homens chegaram ao campo da batalha, escreve Tácito, acharam ossos esbranquiçados e crânios presos aos troncos das árvores e enterraram os mortos. Duas das três águias perdidas foram recuperadas nessas campanhas, a terceira em 41 d.C. Depois Tibério chamou Germânico de volta. Augusto tinha deixado o conselho de manter o império dentro dos seus limites, e o Reno continuou sendo a fronteira.
Armínio foi assassinado pelos próprios parentes por volta de 21 d.C. Tácito o chama de libertador da Germânia, sem dúvida nenhuma. Em 1875 os alemães terminaram uma estátua gigante de cobre dele, o Hermannsdenkmal, no alto de um morro perto de Detmold, onde se pensava, na época, que a batalha tinha acontecido.
Fontes
- Veleio Patérculo, História Romana 2.117–120
- Cássio Dio, História Romana 56.18–24
- Suetônio, Vida de Augusto 23
- Tácito, Anais 1.11, 1.55–62, 2.25 e 2.88
- Museu e Parque de Kalkriese, perto de Osnabrück (achados do campo de batalha)
- Peter S. Wells, The Battle That Stopped Rome (2003)