Roma Antiga · Expressões

O que Augusto quis dizer com ‘encontrei Roma de tijolos e a deixei de mármore’?

A resposta curta

Era a vanglória de Augusto sobre a reconstrução de Roma. Suetônio, Vida de Augusto 28, diz que ele embelezou tanto a cidade que podia se gabar de tê-la recebido de tijolos e deixado de mármore: templos, fóruns e teatros revestidos de pedra. Cássio Dio dá uma versão no leito de morte e diz que falava da força do império.

Revisado em

O que Suetônio escreveu de fato

A frase famosa não é uma citação. Suetônio, escrevendo cerca de um século depois da morte de Augusto, a conta com as próprias palavras. Roma, diz ele, não tinha o esplendor que a majestade do império pedia, e vivia exposta a enchentes e incêndios. Augusto a melhorou tanto que podia se gabar, com razão, de deixar de mármore a cidade que tinha recebido de tijolos: marmoream se relinquere, quam latericiam accepisset (Augusto 28). E ainda a tornou segura para o futuro, acrescenta Suetônio, até onde a previsão humana alcança.

A versão redonda em primeira pessoa, “encontrei Roma de tijolos e a deixei de mármore”, é o jeito como escritores posteriores poliram a frase. A vanglória é de Augusto. A redação é nossa.

A versão de Cássio Dio, no leito de morte

Cássio Dio, senador grego que escreveu dois séculos depois de Augusto, põe a frase na boca dele no último dia. Augusto disse aos amigos, conta Dio, que tinha encontrado Roma feita de terra e a deixava para eles feita de pedra. Depois Dio explica: ele não falava da aparência dos prédios, mas da força do império (História Romana 56.30). Nessa leitura, a vanglória é sobre o Estado que ele montou com os destroços das guerras civis, não sobre os templos. Como ele morreu é outra história.

O que ele construiu

Suetônio não exagerava muito. As obras de Augusto e dos amigos mudaram a cara da cidade:

  • Templos. Só em 28 a.C., diz Augusto, ele restaurou oitenta e dois templos (Res Gestae 20). Também ergueu novos: o de Apolo no Palatino, ao lado da sua casa; o do divino Júlio César, no Fórum; e o de Marte Vingador, dedicado em 2 a.C.
  • Um fórum só dele. O Fórum de Augusto, construído em volta desse templo de Marte, com pórticos cheios de estátuas dos grandes homens de Roma.
  • Salões e teatros. Uma nova sede do Senado, a Cúria Júlia; a Basílica Júlia reconstruída; o Teatro de Marcelo, com o nome do sobrinho.
  • Monumentos à família. O enorme Mausoléu redondo no Campo de Marte e o Altar da Paz, a Ara Pacis, com a família esculpida em procissão.
  • Água e segurança. O amigo Agripa construiu aquedutos, termas e o primeiro Panteão. Augusto dividiu a cidade em catorze regiões, criou um corpo de bombeiros e limpou o leito do Tibre contra as cheias (Augusto 30).

Ele também pressionou amigos ricos a construir. Suetônio cita vários: Estatílio Tauro deu a Roma um anfiteatro, Asínio Polião um Átrio da Liberdade, Cornélio Balbo um teatro (Augusto 29).

Pele de mármore, ossos de tijolo

O mármore era um luxo raro em Roma. Com Augusto, virou a fachada pública da cidade: a pedra branca e brilhante das pedreiras de Luna, a atual Carrara, na Toscana, exploradas em grande escala a partir da sua época, e mármores coloridos trazidos da Grécia, da Ásia Menor e da África. Muitas vezes era só uma pele, placas finas e colunas sobre núcleos de concreto, tufo vulcânico ou tijolo.

O próprio Augusto vivia à moda antiga. Suetônio diz que por mais de quarenta anos ele dormiu no mesmo quarto, numa casa do Palatino que não era grande nem elegante, com colunatas curtas de pedra comum da região e cômodos sem mármore nem pisos finos (Augusto 72). O mármore era para os deuses e para o povo. E a ironia vai além. Na Idade Média, boa parte do mármore de Augusto foi levada embora ou queimada para fazer cal, enquanto o tijolo e o concreto de imperadores posteriores, como o Panteão de Adriano, continuam de pé.

Fontes

  • Suetônio, Vida de Augusto 28–30 e 72
  • Cássio Dio, História Romana 56.30
  • Augusto, Res Gestae 19–21
  • Ara Pacis Augustae (13–9 a.C.), Museo dell’Ara Pacis, Roma
  • Paul Zanker, The Power of Images in the Age of Augustus (1988)