A resposta curta
Significa “caveira”. Gólgota é a forma grega do aramaico gulgulta, e três Evangelhos a traduzem como “lugar da caveira”. Lucas dá só a tradução, “A Caveira”, que a Bíblia latina verteu como Calvariae, de calvaria, crânio. Daí vem a palavra Calvário. Por que o lugar tinha esse nome, nenhum Evangelho explica.
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Uma palavra que os Evangelhos traduzem
Os Evangelhos foram escritos em grego, mas guardam algumas palavras na língua que Jesus falava, quase sempre com a tradução ao lado: talita cumi, Eloí, Eloí, Raboni. Gólgota é uma delas. Marcos e Mateus a escrevem e explicam: “que quer dizer ‘Lugar da Caveira’” (Mateus 27:33). João põe a tradução primeiro:
Ele saiu, carregando a sua cruz, para o lugar chamado “Lugar da Caveira”, que em hebraico é chamado “Gólgota”,
Quando diz “hebraico”, João se refere ao aramaico falado na Judeia, como faz com Gábata, o Pavimento (João 19:13). A palavra aramaica é gulgulta; na boca grega, um dos “l” caiu. Lucas, que escrevia para leitores gregos, deixa de lado a palavra estrangeira e dá só o sentido, Kranion, “A Caveira” (Lucas 23:33). É a palavra que deu “crânio” em português.
Uma palavra comum para cabeça
A prima hebraica, gulgolet, aparece na Bíblia hebraica para o osso da cabeça, muitas vezes em cenas duras.
Uma certa mulher atirou uma pedra superior de moinho na cabeça de Abimeleque, quebrando-lhe o crânio.
Quando Jezabel é jogada da janela, os que vão sepultá-la não encontram nada além “do crânio, dos pés e das palmas das mãos” (2 Reis 9:35). A mesma palavra servia para contar gente, como dizemos “por cabeça”. O maná é recolhido à razão de “um ômer por cabeça” (Êxodo 16:16), e o recenseamento de Moisés é feito “um por um” (Números 1:2), literalmente pelos crânios. Nada de poético, portanto: Gólgota era simplesmente Caveira.
De Calvaria a Calvário
Quando Jerônimo fez a Bíblia latina, no fim do século IV, manteve Gólgota e traduziu a explicação como Calvariae locus, o lugar da caveira. Em Lucas, sem palavra aramaica para guardar, o lugar fica só Calvariae. O latim calvaria vem de calvus, calvo. Foi pelo latim que o português ganhou o Calvário.
E a palavra seguiu viagem. Deu nome a igrejas e capelas, e virou substantivo comum: um calvário é qualquer sofrimento prolongado, como quando alguém diz que a reforma da casa virou um calvário.
Por que “caveira”?
Os Evangelhos nunca explicam o nome, e escritores posteriores deram três respostas:
- O formato. Talvez uma saliência de rocha nua e arredondada. O peregrino de Bordéus que esteve ali em 333 falou do “pequeno monte do Gólgota”, um primeiro passo rumo ao “monte Calvário”; os Evangelhos falam apenas de um lugar.
- As execuções. Jerônimo achava que o nome vinha de ser o lugar onde se decapitavam os condenados.
- Adão. Orígenes, no século III, registrou uma tradição hebraica de que Adão estava enterrado ali, de modo que o sangue da cruz caiu sobre o crânio do primeiro homem. Jerônimo achou a leitura agradável ao ouvido, mas falsa. Os pintores a adoraram mesmo assim, e é por isso que tantas vezes há uma caveira ao pé da cruz.
Onde ficava o lugar de verdade, e por que hoje ele está dentro das muralhas da Cidade Velha, é outra pergunta: onde Jesus foi crucificado?
Fontes
- Mateus 27:33; Marcos 15:22; Lucas 23:33; João 19:13–17
- Juízes 9:53; 2 Reis 9:35; Êxodo 16:16; Números 1:2
- Itinerarium Burdigalense (Peregrino de Bordéus), 333
- Orígenes, Comentário a Mateus (sobre 27:33); Jerônimo, Comentário a Mateus 27:33
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.