A resposta curta
Em Ialta, em fevereiro de 1945, Roosevelt, Churchill e Stálin decidiram ocupar a Alemanha em zonas, uma delas francesa; empurrar as fronteiras da Polônia para o oeste e realizar ali “eleições livres e sem entraves”; abrir a conferência de fundação da ONU em 25 de abril; e, em segredo, que a União Soviética entraria na guerra contra o Japão.
Revisado em
Três homens em Livádia
A conferência foi de 4 a 11 de fevereiro de 1945, no Palácio de Livádia, construído para o último czar, perto de Ialta, na Crimeia, à beira do mar Negro. Roosevelt tinha sessenta e três anos e estava gravemente doente; Churchill tinha setenta; Stálin, o anfitrião, sessenta e seis. O mapa favorecia o anfitrião: o Exército Vermelho estava no rio Oder, a uns 65 quilômetros de Berlim, enquanto americanos e britânicos ainda não tinham atravessado o Reno. Ialta foi a cúpula do meio. Em Teerã, em novembro de 1943, os três tinham acertado a invasão da França. Em Potsdam, de 17 de julho a 2 de agosto de 1945, Truman ocupou a cadeira de Roosevelt e, no meio da conferência, Clement Attlee substituiu Churchill depois da eleição britânica; só Stálin esteve nas três.
O que eles assinaram
- Alemanha. Rendição incondicional, ocupação em zonas, com uma zona para a França tirada das áreas americana e britânica, um assento francês no Conselho de Controle Aliado e uma comissão em Moscou para calcular as reparações de guerra, que a União Soviética queria pesadas.
- Polônia. A fronteira leste seguiria a Linha Curzon, mais ou menos onde as tropas soviéticas tinham parado depois de invadir o leste polonês em 1939, e a Polônia ganharia terras alemãs no norte e no oeste. O governo provisório apoiado por Moscou seria “reorganizado sobre uma base democrática mais ampla” e se comprometeria com eleições.
- O resto da Europa libertada. Uma Declaração sobre a Europa Libertada prometia governos escolhidos por eleições livres.
- As Nações Unidas. Conferência de fundação em São Francisco a partir de 25 de abril de 1945, direito de veto para as grandes potências no Conselho de Segurança e assentos próprios para a Ucrânia e a Bielorrússia soviéticas.
- Japão. Num acordo secreto à parte, a União Soviética entraria na guerra do Pacífico “dois ou três meses depois da rendição da Alemanha”, em troca do sul de Sacalina, das ilhas Curilas e de direitos na Manchúria.
O coração da cláusula polonesa dizia:
Este Governo Provisório Polonês de Unidade Nacional se comprometerá a realizar eleições livres e sem entraves o mais cedo possível, com base no sufrágio universal e no voto secreto.
Duas leituras do mesmo texto
O texto deixava de fora o que mais importava: quem organizaria as eleições e quem as fiscalizaria. À mesa, Churchill tinha pedido que a Polônia fosse “senhora em sua própria casa”. A resposta de Stálin, na ata americana, voltava trinta anos no tempo: a Alemanha tinha atacado a Rússia pela Polônia duas vezes, e por isso a Polônia era para ele “não só uma questão de honra, mas de vida ou morte para o Estado soviético”. Moscou leu o acordo como o reconhecimento de um governo amigo na fronteira. Em Washington, Roosevelt disse ao Congresso, em 1º de março, que Ialta deveria significar o fim das “esferas de influência”. Em abril, onze dias depois da morte de Roosevelt, o almirante William Leahy disse numa reunião dos assessores de Truman que o acordo era “passível de duas interpretações”.
Roosevelt entregou o Leste Europeu?
Na Polônia e em boa parte do Ocidente, “Ialta” passou a significar grandes potências decidindo o destino de um país pequeno sem ele. Críticos americanos dos anos 1950 acusaram um Roosevelt doente de ter sido enganado e de ter entregado o Leste Europeu a Stálin. Os defensores respondem que Ialta não deu nada que o Exército Vermelho já não ocupasse, que os assessores militares de Roosevelt temiam perdas americanas pesadas numa invasão do Japão e que Stálin cumpriu a promessa sobre o Japão: declarou guerra em 8 de agosto de 1945, exatamente três meses depois da rendição alemã. Quando a Polônia finalmente votou, em janeiro de 1947, governos ocidentais denunciaram a eleição como fraudada. Treze meses depois de Ialta, Churchill já falava numa linha cortando a Europa (a Cortina de Ferro). O registro mostra uma promessa que os dois lados puderam assinar porque cada um a lia de um jeito, e o começo da briga que virou a Guerra Fria (como começou a Guerra Fria).
Fontes
- Protocolo da Conferência da Crimeia e Acordo sobre o Japão, 11 de fevereiro de 1945 (Avalon Project)
- FRUS, The Conferences at Malta and Yalta, 1945 (atas americanas das sessões plenárias)
- Franklin D. Roosevelt, discurso ao Congresso sobre a Conferência de Ialta, 1º de março de 1945
- Serhii Plokhy, Yalta: The Price of Peace (2010)