A resposta curta
A Cortina de Ferro era a linha que separou da Europa Ocidental os países sob controle soviético depois de 1945. Winston Churchill tornou a expressão famosa em Fulton, no Missouri, em 5 de março de 1946: uma cortina de ferro tinha descido “de Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático”. Mais tarde ela virou uma fronteira fortificada, até 1989.
Revisado em
O discurso de Fulton
Churchill já não era primeiro-ministro quando fez o discurso. Os eleitores britânicos o tinham tirado do cargo em julho de 1945, e em 5 de março de 1946 ele falou no Westminster College, em Fulton, no Missouri, como cidadão comum, com o presidente Truman ao lado no palco: o Missouri era o estado natal de Truman. O título era “The Sinews of Peace”, e boa parte do texto defendia uma parceria estreita entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, a chamada “relação especial”. A frase que foi parar nas manchetes veio no meio.
De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente.
Atrás dessa linha, disse Churchill, ficavam as velhas capitais da Europa Central e Oriental, Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sófia, todas no que ele chamou de “esfera soviética”. As duas pontas são fáceis de achar no mapa de hoje: Stettin é Szczecin, na Polônia, porque as fronteiras polonesas foram empurradas para o oeste em 1945, e Trieste fica na Itália.
Quem inventou a expressão?
Não foi Churchill. A cortina de ferro nasceu no teatro: era a cortina corta-fogo, de metal, baixada entre o palco e a plateia para que um incêndio não se espalhasse. Como imagem de uma fronteira fechada, já aparecia em 1920 num livro da socialista britânica Ethel Snowden sobre a viagem dela à Rússia bolchevique. Em fevereiro de 1945, Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, escreveu que um eiserner Vorhang, uma cortina de ferro, cairia sobre a parte da Europa que os soviéticos ocupassem. O próprio Churchill tinha usado a imagem num telegrama particular a Truman, em 12 de maio de 1945. Fulton só a tornou pública, e ela pegou. Em português, a expressão entrou para os livros de escola e para o noticiário.
A resposta de Moscou
Stálin respondeu nove dias depois, numa entrevista publicada no Pravda em 14 de março. Disse que Churchill e seus amigos “têm uma semelhança impressionante com Hitler e seus amigos”, porque Churchill, como Hitler, punha um grupo de nações, as de língua inglesa, acima das outras. Depois veio o argumento de Moscou: a Alemanha tinha atacado a União Soviética pela Polônia, pela Romênia e pela Hungria porque esses países tinham governos hostis. Por que estranhar, então, que a União Soviética, “preocupada com sua segurança futura”, quisesse governos leais ali? Onde Churchill via uma cortina, Stálin descrevia um escudo. Os telegramas secretos daquele ano mostram o mesmo medo nos dois sentidos (o Longo Telegrama).
De metáfora a fronteira de verdade
Em 1946, a linha ainda era uma figura de linguagem, e ainda mudou de lugar. A Iugoslávia rompeu com Stálin em 1948, e a Áustria, ocupada pelas quatro potências, tornou-se neutra em 1955; Belgrado e Viena acabaram fora do bloco soviético. No resto, a linha endureceu. Na fronteira entre as duas Alemanhas e nas fronteiras ocidentais da Tchecoslováquia e da Hungria, os governos do Leste ergueram cercas, campos minados, torres de vigia e uma faixa de terra arada, sobretudo para impedir a saída dos próprios cidadãos. Em Berlim, ela virou muro em 1961 (por que o Muro foi construído). A primeira rachadura veio em 2 de maio de 1989, quando a Hungria começou a desmontar a cerca na fronteira com a Áustria. Hoje, boa parte da antiga faixa é um corredor de natureza, o Cinturão Verde Europeu.
Fontes
- Winston Churchill, “The Sinews of Peace”, Westminster College, Fulton, Missouri, 5 de março de 1946
- Josef Stálin, entrevista ao Pravda, 14 de março de 1946
- Ethel Snowden, Through Bolshevik Russia (1920)
- Patrick Wright, Iron Curtain: From Stage to Cold War (2007)