A Guerra Fria · História

O que foi o Plano Marshall?

A resposta curta

O Plano Marshall, oficialmente Programa de Recuperação Europeia, foi a ajuda americana para reconstruir a Europa no pós-guerra: cerca de 13 bilhões de dólares, de 1948 a 1952. George Marshall o propôs em Harvard, em 5 de junho de 1947, aberto a toda a Europa, União Soviética incluída, mas Moscou recusou e manteve os vizinhos de fora.

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O discurso em Harvard

Três meses depois da Doutrina Truman, em 5 de junho de 1947, George Marshall, que chefiara o Exército americano durante a guerra e agora era secretário de Estado, discursou na formatura de Harvard. Marshall descreveu um continente em que o agricultor deixava de vender comida para a cidade porque a cidade não tinha nada para lhe vender em troca, e em que os governos gastavam os últimos dólares com comida e combustível importados. Então definiu o alvo.

Nossa política não se dirige contra nenhum país ou doutrina, mas contra a fome, a pobreza, o desespero e o caos.

George C. Marshall, Universidade Harvard, 5 de junho de 1947

Veio também um aviso: “Qualquer governo que manobre para bloquear a recuperação de outros países não pode esperar ajuda de nós.” E o planejamento ficaria do outro lado do Atlântico. “Isso é assunto dos europeus”, disse Marshall, e “a iniciativa, creio eu, tem de partir da Europa”: os países precisariam combinar um programa conjunto, e os Estados Unidos pagariam a conta.

Por que Moscou foi embora

O britânico Ernest Bevin e o francês Georges Bidault, ministros das Relações Exteriores, agiram em poucos dias e convidaram a Paris o colega soviético, Viatcheslav Molotov. Ele chegou em 27 de junho com uma grande delegação e propôs que cada país apresentasse a própria lista de pedidos. Um programa conjunto, com americanos examinando as contas de cada um, seria interferência nos assuntos internos, argumentou. Como Bevin e Bidault não abriram mão do plano conjunto, ele foi embora em 2 de julho; o registro britânico guarda o aviso de despedida: “uma divisão da Europa em dois grupos”. Arquivos soviéticos liberados nos anos 1990 confirmam que o Kremlin temia que o plano arrastasse os vizinhos para a economia ocidental.

Alguns vizinhos de Moscou queriam o dinheiro. O governo da Tchecoslováquia votou por ir à rodada seguinte; os líderes do país foram convocados a Moscou e, em 10 de julho, Praga voltou atrás. A Polônia também ficou de fora, assim como a Finlândia. Em 12 de julho, dezesseis países abriram a própria conferência em Paris: Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Grécia, Islândia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Noruega, Portugal, Suécia, Suíça, Turquia e Reino Unido. As zonas ocidentais da Alemanha, depois Alemanha Ocidental, também entraram. O mapa econômico da Europa passou a seguir a linha de Churchill (a Cortina de Ferro).

O dinheiro e as mercadorias

O Congresso discutiu o inverno inteiro. A tomada do poder pelos comunistas em Praga, em fevereiro de 1948, ajudou a decidir a votação, e em 3 de abril Truman sancionou a Lei de Cooperação Econômica. De 1948 a 1952, o Congresso destinou cerca de 13,3 bilhões de dólares, segundo os Arquivos Nacionais americanos, a maior parte em doações, não em empréstimos, e muito em mercadorias: trigo, carvão, algodão, adubo e máquinas, em caixotes carimbados com um escudo e a inscrição “For European Recovery”. A Grã-Bretanha e a França ficaram com as maiores fatias. Um órgão europeu comum, a Organização Europeia de Cooperação Econômica, antecessora da atual OCDE, fazia a partilha. O nome foi escolha de Truman: um programa com o nome do general tinha mais chance num Congresso dominado pela oposição.

A resposta de Moscou

Moscou respondeu na mesma moeda. Em setembro de 1947, numa estação de veraneio na Polônia, fundou o Cominform, um escritório de partidos comunistas, e Andrei Jdanov disse aos delegados que o mundo estava dividido em “dois grandes campos”, apresentando o Plano Marshall como um meio de pôr a Europa sob controle americano. Em janeiro de 1949, o bloco soviético criou uma organização econômica própria, o Conselho para Assistência Econômica Mútua, o Comecon. O interesse americano também era real: como lembram os Arquivos Nacionais americanos, o plano deu aos Estados Unidos mercados e parceiros comerciais confiáveis. A moeda nova das zonas ocidentais, em junho de 1948, nasceu do mesmo esforço e provocou o bloqueio de Berlim (a ponte aérea). No Brasil, como em outros lugares, “Plano Marshall” virou sinônimo de qualquer grande programa de reconstrução.

Fontes

  • George C. Marshall, discurso na Universidade Harvard, 5 de junho de 1947 (Arquivos Nacionais dos Estados Unidos)
  • Lei de Cooperação Econômica de 1948 (Economic Cooperation Act), sancionada em 3 de abril de 1948
  • FRUS 1947, vol. III, The British Commonwealth; Europe (relatórios de Bevin sobre as conversas de Paris)
  • Benn Steil, The Marshall Plan: Dawn of the Cold War (2018)